Há 80 anos, a Segunda Guerra Mundial ganhava um novo capítulo e, talvez, o mais controverso quando falamos em decisões que comprometeram pelo menos 60 mil vidas em um segundo. Estamos falando da explosão do primeiro artefato nuclear em um cenário real de guerra: a bomba “Little Boy” sobre a cidade japonesa de Hiroshima, em 6 de agosto de 1945.
Traçando uma curta linha do tempo, podemos identificar que esse fato teve início 20 dias antes, em 16 de julho daquele ano, quando ocorreu o primeiro teste bem sucedido de uma bomba atômica, realizado no deserto do Novo México, nos Estados Unidos, e que foi batizado por teste Trinity. Nesse mesmo dia, grande parte dos componentes da bomba embarcaram no USS Indianapolis, que partiria em direção a base militar de Tiniam, no Pacífico.
Pensando que a bomba foi lançada em agosto do mesmo ano, fica evidente o alto risco que envolvia todo o procedimento e desfecho do Projeto Manhattan, pois qualquer falha entre o teste e embarque do equipamento no avião não seria aceito.
A partir de então, vamos explicar os fatos por datas.
20 de julho de 1945
O Grupo Composto 509 (509 GC) já havia sido designado como unidade operacional da Força Aérea responsável pelo bombardeio nuclear. Nesta data, os aviões B-29 “Superfortress” decolaram dos EUA em direção ao Pacífico sob enorme sigilo, inclusive entre os tripulantes e demais membros militares, apesar de transportarem simulacros das bombas com massa similar.

23 de julho
O Departamento de Guerra discute com os staff da Casa Branca os prováveis alvos, enviando ao presidente Harry Truman três cidades japonesas: Hiroshima, Kokura e Nagasaki.

25 de julho
Estado Maior do Exército dos EUA autoriza e dar sinal verde para o bombardeio seguir. No mesmo dia, é tornada público a declaração de Postdam, na qual era exigida a rendição incondicional do Japão, antecipando que algo poderia acontecer.
29 de julho
O Japão não leva a sério a ameaça que se aproximava e nega qualquer rendição. Enquanto isso, as bombas começam a tomar forma, com as peças sendo montadas.
31 de julho
A primeira bomba, a Little Boy é montada e aguarda decolagem a qualquer momento.

1º de agosto
A meteorologia previu um tufão na costa do Japão impossibilitando o voo de aeronaves.
2 de agosto
Chega a ilha de Tiniam o restante das peças para mais duas bombas, contudo, apenas a “Fat Man” fica pronta e seria lançada em 9 de agosto sobre Nagasaki. O que pouco se fala é que uma terceira bomba chegou a ser montada, porém, não possuía um núcleo atômico, portanto, não era funcional naquele momento.
Enquanto isso, o comandante do grupamento, o coronel Paul Tibbets e o bombardeiro major Thomas Ferebee viajam até a Ilha de Guan para discutir o plano com o comandante da 20th Força Aérea, o major-general Curtis LeMay. Foi nesse encontro que decidiram pela cidade de Hiroshima como alvo primário e Ferebee indicou a ponte Aioi como marco terrestre. Tratava-se de uma estrutura de concreto em forma de T.
5 de agosto
Aconteceu um fato que não estava previsto. O comandante do grupo, coronel Paul Tibbets assume o comando e a função de piloto do B-29 #44-86292 – N82, substitui o co-piloto pelo então piloto capitão Robert Lewis e ainda rebatiza o avião com o nome “Enola Gay”, uma homenagem a sua mãe.

6 de agosto – hora a hora

00h00 – Sete aviões B-29´s são preparados e suas tripulações foram reunidas para receber informações preliminares, mas esse briefing não detalhou a natureza do ataque, muito menos a bomba atômica. Além do “Enola Gay”, três aviões meteorológicos foram acionados, o “Straight Fluch”, o “Jabit III” (ou Jab 03) e o “Full House”, e mais dois, o “Necessary Evil” e o “The Great Artist”, dariam suporte capturando imagens e registros científicos respectivamente.
01h37 – Os aviões meteorológicos decolam para antecipar o repórter do tempo.
01h57 – O sétimo B-29, batizado por Big Stink decola com destino a ilha de Iwo Jima e com a missão de substituir do “Enola Gay” por qualquer eventualidade.
02h20 – O “Enola Gay” parte para o táxi na pista de decolagem de Tiniam.
02h45 – O piloto Paul Tibbets dá potência nos quatro motores da B-29 e inicia a decolagem do “Enola Gay” com a bomba “Little Boy” a bordo e seguido dos dois aviões de apoio.
03h00 – O capitão da Marinha (US. Navy), o armeiro William Deak Parsons comunica ao comandante que iniciará o processo de montagem da bomba, anexando o núcleo e explosivos que dariam início à reação em cadeia, mas deixando plugs de segurança para não ocorrer qualquer detonação acidental. O fato curioso é que Deak era o comandante da missão.
06h00 – Os B-29´s sobrevoam Iwo Jima, onde o Big Stink aguardava qualquer contato ou ordem.
07h15 – O assistente de armamento, o segundo-tenente Morris Jeppson retira os plugs de segurança e troca por armamento real, deixando oficialmente a bomba Littler Boy na configuração “viva”.
07h30 – O piloto Paul Tibbets comunica a tripulação a real missão daquele voo, informando que eles transportavam uma bomba atômica, ordenando o uso de óculos especiais e coletes balísticos a prova de estilhaços. Ou seja, até este momento apenas quatro pessoas das 12 a bordo no avião sabiam do fato, demonstrando o cuidado com a informação. O “Enola Gay” ganha altitude, sobe para 10 mil metros e é pressurizado.
08h09 – Os aviões meteorológicos sobrevoam seus alvos, as cidades de Hiroshima, Kokura e Nagasaki.
08h24 – Chega a mensagem do B-29 “Straight Fluch” pela fonia “tempo claro (…), recomendamos alvo primário”. O piloto do Enola Gay confirma que entendeu e coloca Hiroshima na rota, equanto que o operador de rádio, o soldado de primeira classe Richard H. Nelson envia a mensagem “primário” para a base de Iwo Jima.
09h05 – Com a cidade Hiroshima no visual, o capitão Theodore Dutch Van Kirk que era o navegador comunica que o alvo estava a 10 minutos. Nesse momento, o Enola Gay está voando a 340 km/h a 9.400 metros de altura.
Aqui merece fazermos uma reflexão. Geralmente, contamos essa história pela pesperctiva americana ou da tripulação do avião. Contudo, às 9h05, do dia 6 de agosto, milhares de moradores de Hiroshima levavam suas vidas sem maiores mudanças – mesmo que em tempo de guerra – e nem imaginavam o que estava para acontecer.
09h12 – O bombardeador Thomas Ferebee assume o comando e controle do Enola Gaym utilizando um moderníssimo sistema de mira, em busca da ponte Aioi, em forma de T.
09h14 – Às 8h14 horário local, o bombardeador identifica o marco terrestre e aciona o sistema de disparo, apertando o botão que lançaria a bomba em 60 segundos, automaticamente.
09h15 – Com dois segundos de antecipação, a bomba Littler Boy deixa o Enola Gay que logo sente um solavanco alterando em até dez metros a altitude de voo, imediatamente. Ferebee procurou pela bomba com uso da mira, enquanto Paul Tibbets recupera o comando do avião e faz uma manobra de 155º, virando o nariz do avião nesse rumo.
09h16 – Com 44 segundos desde a liberação e 600 metros do solo, ocorre a detonação da bomba Little Boy, o primeiro artefato nuclear utilizado contra um inimigo na história da humanidade.
Em uma fração de segundos surgiu uma luz intensa, talvez mais forte que a do Sol, gerando um calor de 260 mil graus Celsius, o que vaporizou a zona imediata e deixou as sombras das pessoas impressas nas calçadas e ruas.
Após 1 segundo, a bola de fogo já tinha alcançado 270 metros e uma forte onda de choque se espalhou a uma velocidade de 8,2 Mach ou o equivalente a 8.000 km/h. A bomba resultou num estrago de 15 kilotons.

09h17 – A onda de choque atingiu o avião por três vezes, sem maiores danos. O artilheiro de cauda, o sargento Robert Bob Caron foi único membro a ver a explosão e cogumelo.
09h30 – Por 10 minutos e três ocasiões, o piloto deu três voltas sobre Hiroshima e pode conferir os estragos infligidos.

10h15 – Após o avião percorrer 600 km o artilheiro de cauda deixa de ver o cogumelo.
10h55 – Os EUA interceptam uma mensagem dos japoneses relatando o ataque e estragos com destaque para a arma utilizada, sem maiores detalhes. Outra mensagem, falou sobre a explosão e de que se tratava de um equipamento de testes norte-americano.
12h58 – Após quase 12 horas de missão, o Enola Gay pousa em Tiniam encerrando sua participação. Enquanto isso, em Hiroshima mais de 70 mil pessoas perderam a vida em uma fração de segundos e outros milhares viveriam com problemas de saúde ou morreriam por complicações do quadro.

Missão de Hiroshima
A tripulação do Enola Gay, em 6 de agosto de 1945, consistia de doze homens:
- Coronel Paul W. Tibbets Jr. – piloto e comandante da aeronave
- Capitão Robert A. Lewis – co-piloto;
- Major Thomas Ferebee – bombardeiro
- Capitão Theodore “Dutch” Van Kirk – navegador
- Capitão William S. “Deak” Parsons, USN – armador e comandante da missão
- Primeiro-tenente Jacob Beser – contramedidas de radar (também o único homem a voar em ambas as aeronaves de bombardeio nuclear).
- Segundo-tenente Morris R. Jeppson – assistente de armamento
- Sargento Robert “Bob” Caron – artilheiro de cauda
- Sargento Wyatt E. Duzenbury – engenheiro de voo
- Sargento Joe S. Stiborik – operador de radar
- Sargento Robert H. Shumard – engenheiro assistente de voo
- Soldado de Primeira Classe Richard H. Nelson – operador de rádio VHF
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