A noite do dia 23 de novembro de 1935 marcou profundamente a história de Natal/RN, um fato que completa 90 anos e que ficou conhecido como a Intentona Comunista. Na manhã daquele dia, a maior parte da população não imaginava que em poucas horas seria dado início a uma revolução que entraria para a história do Brasil, como a instalação do primeiro e único “governo” comunista das américas, com ramificações nos estados de Pernambuco e Rio de Janeiro.
Mas como Natal, uma cidade do nordeste brasileiro e com pouca tradição operária, se tornou essa referência comunista?
A explicação mais aceitável é que no início do século XX, diversas famílias mandavam seus filhos estudarem na Europa e ali tiveram contato com os ideais contra burguesia, propriedade privada, acúmulo de riquezas e bens. Ao retornarem a Natal, compartilharam sua visão e ideologia que rapidamente se espalhou entre algumas classes sindicais, como portuários, estivadores, intelectuais, militares e opositores do governo constituído.
Aliado a tudo isso soma-se o clima de tensão que o Brasil vivia desde os anos 1920, com maior repercussão na Revolução de 1930 que deixaria resquícios em diversos pontos do país. O Partido Comunista do Brasil (PCB) ganha novos adeptos e em março de 1935 nasce a Aliança Nacional Libertadora (ANL), um movimento que reuniu setores divergentes da sociedade – militares, intelectuais, estudantes, trabalhadores, entre outros – mas que acreditavam em um mesmo ideal. Nesse cenário, surge a liderança de Luís Carlos Prestes, que de imediato lança manifestos contra o Governo Vargas que reage, tornando a ANL ilegal já em julho daquele ano.
A insatisfação social era crescente e parece que a fala de Prestes vinha ganhando atenção no cenário político e econômico. No âmbito local, outros fatores agravaram a situação de revolta. O estado vivia ainda consequências da Revolução de 1930, com grupos políticos adversários protagonizando cenas de intolerância e violência na capital e interior, com espancamentos e até homicídios. O ápice acontece em nas eleições de 1935, ocorridas em outubro e que teve como vencedor Rafael Fernandes, contra Mário Câmara, um importante político apoiado por Café Filho.
Desses atos de violência relatados anteriormente, boa parte tinha a participação e envolvimento da Guarda Civil, um braço da segurança pública que respondia diretamente ao Governador, criada em 1932, por meio de decreto estadual nº 376. Talvez um dos registros mais violentos e, aparentemente, sem qualquer motivação, em 5 de março de 1935 ocorreu um tiroteio na Rua Tavares de Lira envolvendo membros da Guarda Civil e militares do 21º Batalhão de Caçadores (21 BC) com saldo de seis mortos, sendo 2 guardas civis, 2 soldados e 2 civis.

Rafael Fernandes encontrou uma forte resistência nas fileiras da Guarda Civil, por isso, tomou a decisão de extinguir o órgão que tinha cerca de 300 membros à época, deixando essas pessoas insatisfeitas e desempregadas quando assinou o ato, em 20 de novembro de 1935, às vésperas do levante. Uma parcela de ex-membros da Guarda Civil decidiu aderir ao movimento comunista muito mais por insatisfação social do que qualquer identificação ideológica.
Chegando o dia 23 de novembro de 1935, poucas pessoas em Natal imaginavam que o local se tornaria um barril de pólvora prestes a explodir. A principal notícia que corria na sociedade era a formatura da turma de contabilistas do Colégio Santo Antônio, em solenidade marcada no Teatro Carlos Gomes – atual Teatro Alberto Maranhão – com a presença confirmada do governador Rafael Fernandes e do secretário geral Aldo Fernandes.
De acordo com os relatos, o levante teve início às 19h30, ao que tudo indica com a participação de sargentos, cabos e soldados do 21 BC, ao lado de civis, operários, funcionários públicos e policiais descontentes com o governo, que efetuaram os primeiros disparos na Av. Rio Branco com Rua João Pessoa, seguindo em direção ao Quartel General do 21º Batalhão de Caçadores, atual Escola Estadual Winston Churchill, onde renderam a guarnição ali presente.
O chefe de Polícia, João Medeiros Filho estava nas proximidades e sem imaginar o que viria a acontecer, segue para o quartel da Polícia Militar, localizando na então Rua da Salgadeira, atual Casa do Estudante, e determina que o Oficial de Dia entre em prontidão. Logo em seguida ele desce para a Ribeira, para a sede da Inspetoria de Polícia Civil, na antiga sede do Instituto Técnico e Científico de Polícia (Itep). João Medeiros reúne alguns homens e consegue chegar ao Teatro Carlos Gomes onde conferencia com o governador e pede que ele busque abrigo, pois naquele momento não se sabia das reais motivações do levante.
Enquanto isso, ANL instalava no 21 BC o Comitê Popular Revolucionário que destitui o Executivo e Legislativo estadual e torna os membros do Governo como procurados. A junta provisória era composta por Quintino C.Barros, Lauro Lago, José Macedo, João Galvão, José Praxedes e João Lopes.

Os revoltosos assumiram pontos estratégicos de Natal, como o Palácio do Governo (atual Pinacoteca do Estado), a Estação de Trem (atual CBTU), Vila Cincinato: Residência Oficial do Governador, o Porto de Natal, Coletoria Estadual (atual Memorial Câmara Cascudo), a Companhia Força e Luz, o Telégrafos, a Cadeia Pública e a Escola de Aprendizes Marinheiros entre outros. Além disso, foi determinado toque de recolher para os cidadãos, fechamento de jornais e o desligamento do farol localizado no Forte dos Reis Magos, na boca da Barra.
De acordo com documentos da Fundação Getúlio Vargas, o governador Rafael Fernandes e outras autoridades refugiaram-se inicialmente na casa do cônsul chileno, e em seguida numa embarcação da companhia Latecoère, sob a bandeira francesa. Assim conseguiram escapar dos revoltosos. Já João Medeiros Filho sem saber que o 21 BC estava tomado, foi rendido quando tentava pedir ajuda.
Diante desse cenário, todas as atenções se viraram para o Quartel da PM, na Rua da Salgadeira. O comandante da PMRN, o major Luiz Júlio estava dentro do prédio ao lado do comandante do 21 BC, o tenente coronel José Otaviano Pinto Soares, quando recebeu uma ligação e foi informado que as forças comunistas estava a caminho e fortemente armadas. Foram 19 horas de combate, uma cena nunca antes vista em Natal, que cessou apenas porque os policiais ficaram sem munição.
Talvez o relato mais famoso é obre uma metralhadora .30 colocada sobre a torre da Matriz da Igreja Nossa Senhora da Apresentação – dois dias após a celebração da padroeira de Natal – de onde abriram fogo contra o Comando da PM. Na manhã do domingo, 24, ainda eram ouvidos disparos que persistiram até o início da tarde, quando os policiais ficaram sem munição e tiveram que fugir a nado pelo Rio Potengi, com muitos deles sendo presos.

Sem resistência, foi instituído o primeiro Governo Comunista do Brasil que determinou o fechamento das rádios e redações de jornais impressos, a redução do valor da passagem dos bondes, a queima de documentos nos cartórios e o arrombamento do cofre público. Esse último ato até hoje é envolto em controvérsia e sem consenso entre os pesquisadores, pois o valor restituído não seria o mesmo que constava no registro contábil, ou seja, alguém enriqueceu as custas dos companheiros comunistas. Um dos detidos após o levante confessou que ia passando nas proximidades da coletoria quando foi chamado por um grupo de homens para arrombar o cofre, sem nenhum envolvimento prévio com a intentona.
O comércio da cidade foi profundamente afetado, pois no domingo também ocorreram saques e arrombamentos, como foi relatado por Amélia Machado, a famosa Viúva Machado, que administrava da Despensa Natal, na Ribeira. A situação se agravou na segunda-feira, 25, quando a população não aderiu ao levante e os arrombamentos cresceram.
Os comunistas perceberam que não poderiam ficar restritos a Natal e decidiriam se dividir em, pelo menos três colunas, a primeira com destino a Recife e outras duas pelo interior do RN. No domingo, 24, a notícia da intentona chegou a capital pernambucana e algo similar aconteceu com os sargentos, cabos e soldados do 29 BC, sendo logo saturado pelas forças locais, inviabilizando qualquer continuidade da revolta. No RN, a liderança seridoense Dinarte Mariz monta uma resistência e desce em direção a Serra do Doutor, onde combatem e vencem os comunistas com a ajuda de forças paraibanas, após dois embates.
Na terça-feira, 26, alguns pontos de Natal ainda estavam sobre o domínio revoltoso, mas duas notícias eram favoráveis ao governador Rafael Fernandes. A primeira era que o levante tinha chegado ao Rio de Janeiro, mas foi rapidamente contido. A outra notícia era o deslocamento de forças policiais da Paraíba e do 22 BC, oriundos de João Pessoa. Na manhã do dia 27, a cidade estava voltando a normalidade.
Com apoio do Governo Federal, o governador Rafael Fernandes deu início a uma verdadeira caçada aos comunistas e envolvidos na intentona de 1935.
As Vítimas
Durante os eventos da Intentona Comunista de 1935, em Natal/RN, houve vítimas fatais e feridos. Entre os mortos, estão: Octácilio Werneck, Arnaldo Lyra, José Pedro Celestino e soldado Luiz Gonzaga*. Entre os feridos, estão: Francisco Lopes, Horário Antônio, soldado Francisco Victal e soldado Raymundo Alves Pereira.
O fracasso
Os jornais da época não perderam tempo em estampar nas manchetes palavras como fracasso ou fiasco comunista e isso se deu principalmente porque o movimento não teve o apoio popular. Tinha respaldo dos políticos e do Exército, mas não conseguiu adesão das massas, que no geral ficaram em casa com medo enquanto outros saíram as ruas para beber com os revoltosos. Uma cena pouco provável, porém aconteceu.
Há pesquisadores que afirmam inclusive que os comunistas de Natal queimaram a largada e nem tinham o aval da alta cúpula da ANL para agir. O próprio Carlos Prestes pode ter sido pego de surpresa, por isso, não conseguiu organizar um levante maior no Rio de Janeiro e Recife.
O ato de extinção da Guarda Civil e confisco dos armamentos, no início de novembro de 1935, podem ter antecipado a ação no RN.
*Nota do Editor: A presença e morte do soldado Luiz Gonzaga merece um post a parte, pois é envolto em discussões e dúvidas, até mesmo entre os pesquisadores mais sérios.
Referência Bibliográfica:
CIRNE, Maria E. Bezerra. Viúva Machado: a grandeza de uma mulher. Natal/RN. 2025.
CORTEZ, Luiz Gonzaga. A Revolta Comunista de 1935 em Natal: Relatos da Insurreição que gerou o primeiro soviete nas Américas. Natal/RN. 2005.
SILVA, João Batista. Polícia Militar do Rio Grande do Norte: Fatos históricos e desafios contemporâneos. 1ª Edição. Serviço Social do Comércio do Rio do Norte (Sesc RN). Natal/RN. 2025.


