Por Leonardo Dantas
Na última sexta-feira, 14, aviões de caça, transporte, patrulha e guerra eletrônica da Força Aérea Brasileira (FAB) chegaram à Base Aérea de Natal (Bant) para participarem do Exercício Técnico BVR-X (Extec BVR-X), que consiste no emprego real e disparo de míssil de longo alcance a partir dos novos caças F-39 “Gripen”.
BVR é a sigla para Beyond Visual Range, que em uma tradução livre seria “além do alcance visual”, ou seja, o ataque ou contra-ataque deve acontecer a uma distância tão grande que o inimigo não pode ser visto a olho nu, porém detectado por radares ou outros sistemas de rastreio que ajudam o míssil a acertar seu alvo.
Até o momento a única manifestação oficial da FAB se deu por meio do Instagram, em uma postagem atrapalhada que foi ao ar na noite da terça-feira, 18, e ocultada 12 horas após e voltando a ser postada na quarta-feira, 19. Na legenda do post podemos descobrir o nome do exercício e o uso do míssil MBDA Meteor.
O blog P-47 enviou menagens directs para o perfil @fab_oficial e diversos e-mails ao Centro de Comunicação Social da Aeronáutica (Cecomsaer) solicitando algumas informações, mas não obteve retorno em nenhuma das tentativas desde a quinta-feira, 13.
Além da postagem no Instagram, mais informações vieram à tona em uma reportagem da Folha de São Paulo, sob o título; “FAB inicia exercícios com Gripen para disparos de mísseis de longa distância”. Nela, o comandante do Grupo de Defesa Aérea (GDA), o tenente-coronel aviador Ramon Fornéas adianta que o Gripen passará por uma segunda fase envolvendo testes de armas, no Rio de Janeiro, ainda em 2025. E sobre a campanha na Bant, o militar detalhou envolver um alvo móvel e autônomo, um drone de fabricação italiana da marca Leonardo.
Mas por que tanto mistério e desencontros da comunicação oficial sobre o Extec BVR-X?
A resposta mais simples é que se trata da segurança nacional.
Contudo, a situação envolve diversos fatores, tanto internos como externos. Internamente, é um grande desafio para a FAB promover tal simulação, pois envolve algumas centenas de pessoas, recursos e diversas unidades militares, como o CTA, ITA, Bant e CLBI. Quando falamos em meios operacionais, podemos citar quatro F-39 “Gripen”, dois A-1 “AMX”, um E-99 e um P-3 “Orion”.
A questão financeira é fundamental, pois o Brasil vem apostando no sucesso e futuro do Gripen há uma década e a previsão dele estar totalmente operacional ainda é 2026.
Até lá, além do disparo com sucesso dos mísseis, outras certificações estão em andamento, como o reabastecimento aéreo e o deslocamento em grandes distâncias. Ainda é aguardo para os próximos meses, a primeira célula do F-39 Gripen fabricado no Brasil e os modelos biplace utilizados no treinamento dos pilotos.
O sigilo envolve ainda fatores externos. Se o teste sair como o esperado, o poder do fogo do Brasil muda para melhor se comparado com os países vizinhas da América Latina, superando inclusive o Chile, Colômbia e Peru. Não é interessante para esses países, nem mesmo para o poderoso EUA, que o Brasil passe a dominar tal poder de fogo.
No fim das contas, trata-se de um investimento de milhões que coloca em risco toda uma cadeia de processos e aquisições. A seu favor, o Gripen tem os testes aos quais foi submetido, passando em todos com destaque. Foi assim em sua estreia na Cruzex 2024, em que não ficou atrás para nenhum dos meios presentes, a exemplo dos F-15 dos EUA e os F-16 chilenos.
Outro fator que chama a atenção dos vizinhos e do mundo é o alcance dessa arma. O míssil Meteor pesa pouco mais que 190 kg, mede 3,65 metros, pode alcançar velocidade de saída de Mach 4.0 e um alcance médio de 150 km. Ou seja, em poucos segundos o alvo a 100 km de distância seria atingindo. O Meteor já é utilizado no Rafale e no Typhoon, além do Gripen, e é empregado em pelo menos 8 países.
Junto a tudo isso, soma-se o interesse nacional que torna tudo o que for coletado como um segredo de Estado, fundamental para a segurança nacional.
Por fim, fica a torcida que tudo saia conforme o planejado, pois no atual momento de cortes de despesa, é importante que ver a FAB desenvolvendo algo tão importante para o futuro da aviação militar.
