Natal/RN, dezembro de 1941, em uma manhã comum, um jovem branco norte-americano – o popular galego – aparentando 20 e poucos anos, aparece no primeiro andar do Grande Hotel, um prédio grandioso – inaugurado dois anos antes, em uma década quando não existia grandes hospedagens na cidade – com janelas amplas, piso de taco em madeira encerada, um teto com acabamentos em alto relevo e uma escada de vão único que dá acesso ao térreo onde existe um restaurante e uma grande varanda que reunia diariamente pessoas da sociedade natalenses, para conversar, ler jornal e tomar refresco nas confortáveis instalações.
O americano chamava atenção por estar sempre bem vestido, chapéu, camisa em algodão de botões, calça social e sapato preto. Ele levava consigo rente ao corpo uma pasta de couro e ao deixar o Grande Hotel entra em um táxi com destino à base de hidroaviões da Panair, às margens do Rio Potengi, atualmente conhecida como Rampa.

De plano de fundo para essa cena estava a Ribeira, um bairro comercial e bem movimentado da cidade nos anos 1940. O hotel não ficava distante da hidrobase da Panair, mesmo assim era mais confortável utilizar o táxi, pois em dezembro o clima em Natal é bem mais quente e com poucas nuvens no céu. Outro motivo para chamar o chofer todos os dias, e talvez o mais importante, era o conteúdo que transportava na pasta.
Seu destino, a estação de passageiros da Panair era basicamente duas edificações principais e dois piers para a atracação dos hidroaviões, tendo de um lado as águas do Rio Potengi e ao fundo dunas e a Igreja de Santos Reis. Ironicamente, nesse local os americanos estavam a cerca de 400 metros da base dos alemães do Syndicato Condor. Esse cenário atualmente é mais conhecido como Centro Cultural Rampa.
Ao chegar na Rampa, o americano se dirigia ao escritório da empresa aérea, uma sala com cadeiras e alguns quadros na parede, com vista para o Rio Potengi, onde ele pegava envelopes com mensagens que eram guardadas na pasta de couro. Em seguida, ele entrava no banheiro e trancava a porta, pois começaria a ler as correspondências e decodificar mensagens sigilosas.
O “galego” em questão, era o segundo tenente do Exército Americano (US. Army), Marshall Verdine Jamison, o primeiro oficial do Exército norte-americano a desembarcar em Natal, no período da Segunda Guerra Mundial, em 17 de dezembro de 1941, colocando a cidade oficialmente na história do conflito bélico.

A pasta e a missão
Para a sociedade e autoridades brasileiras Marshall Jamison era apenas um americano como tantos outros a serviço da Panair. Contudo, sua atuação renderia um verdadeiro e bom filme de espionagem, pois sua missão era comandar as atividades militares na cidade, em um desafio que envolvia logística e diplomacia: a implantação de uma base do Comando de Transporte da Força Aérea do Exército (ACFC).
A pasta de couro – da qual não saía de perto – possuia os meios e canais capazes de decodificar mensagens criptografadas diretamente dos Estados Unidos, que vinha pela Panair e eram referentes a passagens de aviões e tripulações norte-americanas pela cidade a caminho, sobretudo, do Norte da África a pedido dos ingleses.

Marshall Jamison voltou ao Brasil diversas vezes após a guerra e em uma dessas visitas ele explicou em detalhes sua atuação durante a guerra. Existe ainda um depoimento resumido no livro “Fairwing Brazil: Tales of the South Atlantic in World War II” do veterano John Harrison. Neles, ele conta que precisava decodificar e codificar mensagens, sem ter um quartel-general, nem mesmo uma sala, sendo o comandante sem tropa.
“A minha sala de decifragem foi exatamente o sanitário dos homens, lá na “Rampa. (risos)”, disse Marshall.
Diferente dos alemães que utilizavam equipamentos complexos como a máquina “Enigma”, o nosso personagem contava apenas com dois discos com 25 letras cada. Um sistema que os americanos utilizavam e foram aprimorando desde a Guerra Civil, no século XIX.

“Recebia a mensagem com várias letras misturadas. A gente colocava aquelas letras e ajustando em cada disco. E depois de colocadas, a gente manipula o conjunto de discos até chegar a uma frase que fazia sentido. Então esse foi um dos sistemas. O outro foi um sistema de simples de cartões, esse foi um aparelho que pode usar permanentemente. O outro foi sistema de cartões codificado que chegavam mensalmente, mudando mês a mês”, detalhou.
Essas mensagens continham informações sobre a quantidade aviões e pessoas nas tripulações, que vinham dos Estados Unidos, passando antes por Trindade e Belém. Baseado nesses informes, Marshall deveria providenciar combustível, alimentos e local para descanso, seja na cidade ou em Parnamirim. De acordo com ele, os aviões eram abastecidos com bombas manuais que retiravam o combustível de tonéis de metal e os quadrimotores necessitavam de muita mão de obra, que também era de sua responsabilidade a contratação entre os civis.

O disfarce
O disfarce do segundo-tenente era necessário pois na prática o Brasil permanecia neutro no contexto da guerra. Cronologicamente precisamos explicar algumas situações. Os americanos entram oficialmente na guerra após o ataque a base de Pearl Harbor, no Havaí, em 7 de dezembro de 1941, ou seja, dez dias antes do Marshall chegar a Natal. O Brasil declarou guerra ao Eixo apenas em agosto de 1942, apesar de ter rompido relações ainda em janeiro do mesmo ano, então por alguns meses permitiu a interferência dos EUA em solo nacional.
Dou outro lado do Atlântico, os ingleses estavam em guerra desde 1939 e tinham aderido ao programa de Lend-Lease, regulamentado em março de 1941 o que permitia o rearmamento de seus exércitos com equipamentos financiados e produzidos nos EUA. Devido aos bloqueios navais impostos pelos submarinos alemães e a urgência em receber tais equipamentos, a forma mais prática de entregá-los seria via área, principalmente, os aviões. Nesse contexto, surge Natal, uma rota segura, mais rápida e já conhecida pela aviação desde os anos 1920.
No início dos anos 1940, o Brasil estava buscando financiamento para a construção de sua primeira siderurgia. Após alguns anos negociando com alemães e americanos, o acordo com foi fechado com os estadunidenses, o que foi primordial na adesão do país ao lado Aliado. Dessa forma, o Governo brasileiro cedeu a construção de aeroportos e passagens de aviões estrangeiros, em troca dos recursos para sua siderúrgica e uma linha de crédito dentro do Lend-Lease para o rearmamento do Exército, Marinha e Aeronáutica. Esse acordo fica regulamentado por meio do Decreto Nº 3.462, de 25 de julho de 1941, favor da Panair, no que ficou conhecido como Airport Development Program (ADP), que previa a construção de aeroportos ou ampliações por parte da Pan Am. Mas na realidade os recursos e obras eram subordinadas diretamente ao Corpo de Engenharia do Exército dos Estados Unidos.
O reais motivos
Tudo estava acertado. Os aliados precisavam de material bélico, que era financiado, fabricado e transportado pelos americanos, passando pelo Brasil a caminho do front. Contudo, a Legislação da época permitia apenas a passagens de seis aeronaves pelo território do brasileiro. Por isso, o trabalho de Marshall era essencial, pois ele tinha que prever a chegada e providenciar os detalhes da partida, pensando no descanso e alimentação. Num primeiro momento, ele adquiriu beliches e levou até o hangar da Air France, em Parnamirim.

“Eu fui aquele mercado – Mercado Público de Natal por trás do Banco do Brasil – comprei quatro cestas grandes de vime. Comprei quatro daqueles queijos de Minas Gerais, enlatados. Gostoso, queijo muito bom. Comprei várias dúzias de bananas para cada cesta, aquela casca verde. (…) pão, naturalmente. Abacaxi. Não sei porque os abacaxis daquela época foram melhores do que os de hoje, mas foram os mais gostosos que encontrei na minha vida. Doce, gostosos mesmo. Então, abacaxi, laranjas, bananas, pão, queijo, talvez algumas latas de carne enlatada, coisas que poderiam ficar sem apodrecer, nessas horas e, levei para cada avião uma dessas cestas grandes de comida”, relatou.
Esses aviões passavam pelo Brasil muitas vezes sem qualquer identificação militar, associados a Pan American Airlines, mas com destino o arsenal de países aliados, como Inglaterra, China, União Soviética, Indonésia, entre outros. As autoridades brasileiras faziam vista grossa sem qualquer tipo de fiscalização desses equipamentos, nem sobre as cargas transportadas. Marshall relata que em certa ocasião transportou munição para holandeses.
Marshall Jamison ficou em Natal até junho de 1942, quando foi promovido direto a capitão. Nesse curto tempo, ele acompanhou o número crescente de militares chegando a cidade, deixando seu quartel-general do Grande Hotel para a base de Parnamirim Field. Foi uma pessoal fundamental para o início das operações do Exército Americano em solo potiguar, mantendo contato direto com as autoridades.
Marshall Jamison

Curiosamente, é que um mês antes de chegar a Natal, em 17 de novembro de 1941, Marshall Jamison estava se casando e, por isso, tinha direito a licença especial. Á época, era segundo-tenente oficial meteorológico do Exército dos Estados Unidos, recém nomeado comandante da estação meteorológica de Losey Field, em Porto Rico.
“Meu Comandante me concedeu licença para que eu pudesse ir a San Juan em 17 de novembro de 1941, encontrar minha noiva e nos casarmos. Um capelão do Exército nos casou no dia em que Mary Dell chegou, na pequena capela do antigo castelo/fortaleza de El Morro, em San Juan. A Sra. Temple ficou satisfeita. Passamos nossa lua de mel na floresta de El Yunque, em Porto Rico. Ainda de licença, viajamos para Ponce. (…) Ao me ver, o sargento exclamou: “Onde você estava? O comandante quer ver você!” Respondi que estava de licença, havia acabado de me casar e ainda estava de licença. O sargento insistiu: ir ver o comandante agora”, lembrou Marshall.
De acordo com ele, ao se apresentar ao comandante, passou por interrogatório e foi informado que sua licença estava suspensa pois seria transferido. A mensagem que chegou do Alto Comando dizia para enviar o segundo-tenente Marshall Verdine Jamisson no primeiro avião comercial ou militar disponível para Washington, D.C., para se apresentar ao General Comandante do Corpo Aéreo do Exército, a fim de receber designação para serviço temporário fora dos limites continentais dos Estados Unidos.
Até então, oficialmente os EUA não estavam em guerra, então qual o motivo dessa transferência do militar? Em Washington D.C., em 25 de novembro de 1941, o estado-maior do Corpo Aéreo do Exército encaminhou ele para o quartel-general do recém-criado Comando de Transporte do Corpo Aéreo (ACFC) que estava transportando aviões para os aliados, passando pelo Brasil. A princípio, Marshall foi designado a Serra Leoa, pois os EUA tinham receio do avanço de Rommel no Norte África, mas tudo mudou com o ataque sofrido em Pearl Harbor.
“Em Washington, tive tempo de pesquisar sobre Serra Leoa na Biblioteca do Congresso. (…) Repetidas incontáveis vezes estavam as expressões “túmulo do homem branco”, “túmulo do homem branco”. Filosoficamente, disse a mim mesmo: “Você está no serviço. Você é um ‘GI’. Talvez não sobreviva às doenças e aos perigos de Serra Leoa, mas talvez possa ter ao menos mais alguns dias com sua nova esposa, Mary Dell. É só isso que peço (…) O ataque a Pearl Harbor, ocorreu enquanto eu estava em Washington”, detalhou.
No dia 10 de dezembro, o ACFC mudou as ordem e Marshall soube que seria enviado para Natal, no Brasil. Segundo o tenente, ele trocou a perspectiva, de uma doença fatal para um dos climas mais agradáveis do mundo.
“Por volta de 17 de dezembro de 1941, cheguei a Natal e me tornei “Oficial de Controle”, ou Comandante das operações do recém-iniciado ACFC no aeródromo de Parnamirim. O aeródromo de Parnamirim era usado pela Air France, Panair do Brasil e Linee Aeree Transcontinentali Italiane (LATI). Encontrei alojamento no Grande Hotel, na Ribeira, a parte baixa da cidade de Natal. A Ribeira fica às margens do largo rio Potengi. Os “Clippers” da Pan American, vindos da África, pousavam no Potengi. A Panair do Brasil tinha seus escritórios, instalações de comunicação e facilidades de atracação de Clippers, no Potengi.”
O risco do ofício
Com objetivo de conhecer melhor a logística em torno do transporte aéreo, Marshall Jaminon participou de uma missão partindo de Natal com destino ao Cairo, onde existia um aeroporto bem movimentado. Ele sempre disse que Natal era tranquila e amistosa, longe do clima e dos horrores dos campos de batalha. Nessa viagem ao Cairo, o segundo-tenente chegou bem próximo do combate.
“A cidade de Cairo não seria bombardeada. Mas chegando lá ouvimos o boato, (..), que naquela noite seria bombeada, pelo menos o aeroporto seria alvo. Então, pegamos outro avião para uma base em Israel. Base com finalidade e impedir suprimentos de Rommell no mar mediterrâneo. Fomos lá, passamos a noite e voltamos ao Cairo. E realmente, foi bombardeado o aeroporto e nosso avião foi atingido. Foram feitos alguns reparos, saímos para Cartum, no Sudão de novo, Nigéria, etc. Chegando em Nigéria e, saindo do aeroporto lá, perdemos um motor. O piloto precisava voltar e pousar de novo no aeroporto. Eu peguei outro avião e voltei para Natal. E ouvi mais tarde que aquele avião foi realmente danificado e perdido”, comentou.
A despedida
Em junho de 1942, o militar deixou a cidade após ter participado ativamente de um dos momentos mais importantes e críticos para o sucesso do projeto Natal, com a construção da base de Parnamirim. As condições excepcionais de seu serviço fez com que sua promoção pulasse a patente de primeiro-tenente passando direto a capitão. A importância do seu trabalho é tanto que seu substituto foi um coronel indicado por um general.
Ao deixar Natal, Marshall Jamison voltou aos EUA para as atividades meteorológicas, chegando ao comando nacional do serviço de meteorologia.
Nota do editor: Em dezembro de 2007, este editor era repórter d´O Jornal de Hoje, um periódico vespertino de Natal/RN, quando recebeu a informação de que estava na cidade o primeiro comandante americano da Base Aérea de Natal. A informação não era totalmente verdade, pois se tratava do simpático Marshall Jamison. Infelizmente, não consegui a entrevista pois ele tinha agendado com outro jornal da cidade. Anos depois, como membro da Fundação Rampa, tive acesso as fotos de Marshall nessa última visita a Natal.

