95 anos da queda do Olinda – O maior desastre aéreo do Rio Potengi

RIO (12) – A Condor Sindicato Condor, acaba de fornecer à imprensa a seguinte nota:

O hidro-avião Olinda que tinha voado, sem passageiros, com destino a Fernando de Noronha afim de receber a correspondência do “Cap Arcona”, num vôo noturno de experiência no sentido de colher observações, levando a bordo o diretor técnico Max-Sauer e um serviço de rádio a cardo do radiotelegrafista Franz Noether, sofreu grande acidente. O “Olinda” tinha voado até Natal em plena escuridão. Na decolagem daquela capital o hidro-avião foi de encontro a um casco velho de navio, situado no rio cuja posição e existência não estava marcada por luz, causando o choque a rutura (sic) dos tanques de gasolina e consequentemente a explosão e morte dos aviadores Sauer, Nother e Karwat. O desastre foi observado pela estação da Condor que providenciou sobre a salvação dos tripulantes do “Olinda”, conseguindo salvar apenas o mecânico Hein. Foram tomadas outras providências.

Assim, a empresa aérea Sindicato Condor – uma subsidiária da Lufthansa no Brasil – comunicou o grande acidente envolvendo uma de suas aeronaves, em Natal, no dia 11 de setembro de 1931. O “desastre do Olinda” como ficou conhecido ao referenciar o nome do avião sempre é lembrado quando falamos dos primórdios da aviação e o rio Potengi, e ainda é cercado de alguns mitos e teorias conspiratórias.

O principal fato diz respeito ao resgate da carga ao invés dos corpos dos tripulantes, que foram localizados dias depois para serem sepultados e permanecerem no cemitério do Alecrim. Apesar de residirem no Rio de Janeiro, à época, eram alemães a serviço da Condor e um deles ocupava um importante cargo diretivo na empresa, o diretor técnico de aviação Max-Sauer.

O blog P-47 encontrou a matéria publicada no Diário de Pernambuco, em 13 de setembro de 1931, onde consta a transcrição dos telegramas e a entrevista realizada com o sobrevivente, o mecânico Paul Hein, ainda no hospital enquanto estava internado.

A reportagem começa com o trecho a seguir;

Natal (12) – A cidade amanheceu consternada com a notícia do desastres do avião, ocorrido hontem (sic) à meia noite, no rio Potengi.

As primeiras notícias espalhadas entre os populares diziam que um avião da “Laté” – provavelmente um diminutivo para Latecoere, um avião utilizado pelo franceses em Natal desde 1927 – havia caído na água e naufragado, perecendo os tripulantes e passageiros. Essa informação se mostrou incorreta, pois se tratava do “Olinda”, um Dornier Wal que fazia o serviço aéreo do Sindicato Condor.

O Olinda havia chegado a Natal no dia 10 de setembro, oriundo do Rio de Janeiro, com uma parada técnica antes de seguir para Fernando de Noronha, onde foi buscar cerca de 25 quilos em correspondência enviadas da Europa e com os mais variados destinos da América do Sul.

Às 19h30, do dia 11 de setembro, esses homens retornam a Natal no mesmo avião, que ao pousar no rio atraca próximo à estação da Condor, onde hoje existe o 17º Grupamento de Artilharia e Campanha do Exército Brasileiro.

O Dornier Wal “Olinda” – Um voo experiemental

O Dornier Wal foi um dos principais hidroaviões de longo alcance desenvolvidos pela Alemanha no período entre as duas guerras mundiais e um dos maiores em uso pelo Sindicato Condor no Brasil. O modelo se destacou pela robustez e pela capacidade de operar em mar aberto, características que o tornaram adequado às primeiras rotas aéreas sobre o Atlântico.

A ideia era utilizar aviões e navios para otimizar o envio de correspondência entre Alemanha e América do Sul, na década de 1930, por iniciativa da Deutsche Luft Hansa. Na prática, o avião faria o trecho continental e o navio na maior parte do oceano Atlântico. No caso do Olinda, o voo era experimental e fundamental para instalação de uma rota regular.

Ironicamente, no caso do Olinda é que o hidroavião podia pousar no mar aberto, ser içado para o convés, reabastecido e depois lançado novamente por catapulta, em condições muito mais difíceis do que decolar de um rio como o Potengi. O navio Capitão Arcona, por exemplo, não podia ancorar na tranquilidade da baía de Fernando de Noronha, então, a tripulação teve que pousar entre as ondas e o vento forte.

A tripulação

Recorte do Jornal do Brasil de 13 de setembro de 1931 (Fonte: Arquivo Nacional)

A tripulação era composta pelo piloto Max Christian Sauer que também era diretor técnico da empresa Sindicato Condor, natural de Hamburgo, nascido em 26/06/1899. O segundo-piloto era Rudolf Karwat, natural de Yohannisthal (ou Johannistal / Berlim), nascido em 10/05/1897. Já o rádio telegrafista era Franz Noether, natural de Brecha, nascido em 08/04/1899. E o mecânico Paul Hein, que também era alemão, mas residia no bairro do Botafogo, no Rio de Janeiro.

Da decolagem ao desastre

Enquanto a aeronave era abastecida com 2 mil litros de gasolina e preparada para seguir viagem ainda naquela noite em direção à Bahia, esses homens jantaram e descansaram um pouco. Exatamente na hora marcada, às 23h30, a tripulação retornou ao “Olinda” que era manobrado pelo piloto Max Sauer sobre o rio Potengi. Todos estavam dentro da nacele de pilotagem, com exceção do mecânico Paul Hein que estava sobre o avião de olho nos dois potentes motores instalados em linha, sobre a asa. Eles seguiram rio a cima até próximo do Porto, onde se encontrava o navio “Almirante Jaceguaí”, já nas proximidades do cais da Tavares de Lira.

Com os motores aquecidos e uma boa distância de rio a percorrer, Sauer deu potência para virar o nariz do Dornier Wal em direção a foz do Potengi e balizado pela iluminação que delimitava a margem esquerda do rio para as embarcações, ele deu início a decolagem e, em meio a escuridão da noite, ao atingir apenas 10 metros de altura, a tripulação sentiu um forte impacto, pois a asa esquerda havia tocado uma velha barcaça encalhada na margem esquerda do rio, fazendo com que o avião virasse bruscamente o nariz à esquerda e em direção ao solo, explodindo em seguida e matando três dos quatro tripulantes.

Esse relato foi do mecânico Paul Hein, o único sobrevivente, que foi entrevistado pelo Diário de Pernambuco. De acordo com ele, após o impacto e explosão, ficou desorientado e por algum tempo desacordado, mas ao recuperar a consciência percebeu a gravidade da situação buscou pelos companheiros sem sucesso. Ele disse ainda que os restos da barcaça era de conhecimento de todos, por isso, acreditava que a escuridão da noite foi um dos principais motivos do acidente.

A forte explosão foi ouvida por boa parte da cidade e vista, principalmente, por um grupo de pessoas que estavam na margem oposta do rio, identificadas como Manuel Ciriaco, Chico Velho e Luiz Boneco “Jacaré”. Esses homens rapidamente pegaram o barco catraia a remo “Minerva”  e atravessaram o rio e socorreram Hein, encontrado próximo da barcaça, que foi levado a bordo do navio “Almirante Jaceguai” antes de ser transferido para o hospital Jovino Barreto, onde foi tratado pelo médico José Tavares. Os catraeiros relataram ainda que viram o que parecia corpos carbonizados, mas não puderam fazer nada, pois a maré estava enchendo rapidamente e priorizaram salvar o ferido.

Às 3 horas da manhã, representantes da Condor – entre eles o diretor local o Sr. Ernest Luck – e autoridades locais chegaram ao local do acidente, contudo, o rio cheio impediu qualquer chance de recuperar os corpos, apesar de terem encontrado parte da carga. Às 8 horas, outras pessoas se juntaram as buscas, entre eles o piloto da Condor identificado apenas como Martesen (ou Mertesen).

A cena do desastre

O cenário descrito no local do acidente era uma asa e os motores sobre a draga – barcaça – a parte da outra asa perto da draga e a cabine e os flutuadores completamente virados parcialmente submersos. O charuto do avião feito em alumínio estava conservado, com exceção do nariz. O motor foi descolado do avião em direção ao mangue.

Após vários esforços e o fluxo da maré, os corpos não foram encontrados, portanto, foi determinado uma busca pela área do mangue e rio acima. Enquanto isso, inúmeras correspondências foram encontradas pelo rio e praia da Redinha, entre elas; cartas de 1º de setembro procedentes de Berlim e Paris, dirigidas a Herm Stoltz & Cia., Companhia Sousa Cruz, Paulo Armando & Cia., Otto Wersel, Alfred Hermann, A. Gomes Pereira e Paulo Jorge, no Rio de Janeiro; e para Otto Meyer em Buenos Aires.

 Foram encontrados também cartões postais. Um deles era a fotografia de uma praia na Alemanha, tendo escrito nas costas, o seguinte: “Vai se chegando e vai se tirando a roupa em plano ar…”. Outro cartão postal era a vista de Hamburgo tendo escrito atrás: “Exmo. Sr. Dr. Zozimo Barroso do Amaral — Rio / Hamburgo 1-9-1931. Meu caro amigo e distinto patriota. Peço-lhe muitas desculpas de não ter me despedido. Ao receber a minha nomeação para o consulado de Hamburgo, parti imediata mente para reduzir as minhas despesas. Aceite um abraço do velho amigo e creado (sic): Pindaro Jataí.”

Segundo matéria do Jornal do Brasil, de 15 de setembro de 1931, os restos mortais das três vítimas foram encontrados a partir das 6 horas do dia 13 de setembro, e o sepultamento aconteceu no mesmo dia, no início da tarde com a presença de inúmeros nataleses e sem ritos religiosos, pois não se sabia as respectivas crenças. O estado dos corpos impediu o processo de embalsamento aqui em Natal, que foi pedido pela empresa Sindicato Condor, que tinha pretensão de enviá-los para a Alemanha.

Cena do resgate do que sobrou do avião Dornier Wal “Olinda”, em 1931

O correspondente desse jornal, noticiou que entre os tripulantes, o rádio telegrafista Franz Noether era um antigo visitante na cidade e, por isso, tinha amigos. De acordo com o relato, ele havia participado ativamente da instalação das torres de comunicação da empresa, pelo menos um ano antes.

Max Sauer por sua vez era o mais proeminente tendo em vista sua importância dentro dos quadros da empresa, seu histórico como aviador da Primeira Grande Guerra e nos primórdios da aviação alemã, sendo um entusiasta do Graff Zepelin e do Do-X. Ele aparece como ativista de ambos os projetos.

O mito da espionagem

Durante muito tempo alimentou-se teorias da conspiração em torno desse acidente, principalmente, pelo que aconteceu logo em seguida, pois se propagou pela cidade que um avião alemão caiu carregado de correspondências secretas alemãs e após o ocorrido a empresa havia se preocupado em recolher as cartas ao invés dos corpos.

Isso não faz sentido se considerarmos o momento geopolítico mundial, tendo em vista que não havia esse clima de pré-guerra e espionagem, como viria a acontecer no final da década de 1930, pois o regime nazista só chegaria ao poder em 1933.

Segundo as matérias dos jornais, a recuperação das cartas realmente aconteceu e detrimento ao dos corpos, mas por motivos plausíveis. Vejamos por exemplo o efeito das marés, que não permitiu qualquer ação imediata mais prolongadas, conforme os catraeiros relataram. Ou seja, a busca só foi possível na primeira maré baixa e apenas por algumas horas do dia 12 e foram concluídas apenas no dia 13.

Outro ponto que sempre é questionado, por que a empresa deixou os mortos em Natal, no Cemitério do Alecrim?

A resposta está nas matérias do Jornal do Brasil e da República, quando citam o estado de decomposição e os ferimentos encontrados nos corpos, que estavam lacerados ou carbonizados, o que impediu o tratamento adequado para o transporte. Como ficaram quase dois dias no rio, eles foram levados para o hangar do Sindicato Condor e colocados nas urnas funerárias devidamente lacradas.

O sepultamento ocorreu ainda no dia 13 de setembro, em túmulos no Cemitério do Alecrim sem ritos religiosos, pois não sabiam quais eram as preferências dos mortos.

Entretanto, vale ressaltar que não identificamos os motivos que fizeram os restos mortais permanecerem em Natal e nunca reestabelecidos aos familiares. A empresa Sindicato Condor providenciou os túmulos e placas com o nome das vítimas, funções e datas de nascimento e morte, fabricada em bronze e adornada com ser angelical com asas.

A empresa Sindicato Condor Ltda, em 16 de setembro de 1931, enviou o Sr. G. A. Wachsmuth com objetivo de agradecer o empenho dos envolvidos e apoio após o acidente.