“Falem bem ou falem mal, mas falem de mim” é uma frase frequentemente atribuída ao cineasta hollywoodiano Henry B. King e muito utilizada no mundo dos negócios e do marketing. A empresa brasileira Embraer provou que isso é verdade, nos últimos dias quando a concorrente a Lockheed Martin resolveu fazer uma postagem, no mínimo, curiosa em sua conta oficial do X.
O post é um vídeo de alguns segundos com o texto; 2,700+ C-130s produced. One competitor? Fewer than 20. Competitors can promise the future. The advantage belongs to those who can build, scale and deliver.
Traduzido: “Mais de 2.700 C-130s produzidos. Um concorrente? Menos de 20. Concorrentes podem prometer o futuro. A vantagem pertence àqueles que conseguem construir, escalar e entregar.”
O post ganhou interpretações e soou como uma indireta para a fabricante brasileira Embraer e coincidiu com a notícia recente do crescimento de vendas do seu cargueiro KC-390. Em 2026, a expansão ganhou novos capítulos. Os Emirados Árabes Unidos assinaram um contrato para a aquisição de dez aeronaves, com opção para outras dez. A Colômbia tornou-se o primeiro país latino-americano, além do Brasil, a adquirir o cargueiro. Já em novembro, a Grécia confirmou a compra de três aeronaves por meio de um acordo governamental com Portugal, com possibilidade de aquisição de outras três.
Hércules vs Millenium
A concorrência entre as grandes marcas é muito comum e uma realidade no mundo dos negócios. E vale ressaltar que um novo produto em qualquer segmento,l surge para suprir deficiências de outro produto melhorando possíveis pontos fracos.
A Embraer desenvolveu o KC-390 Millenium concebendo uma aeronave de nova geração, portanto, não foi desenvolvido simplesmente para reproduzir as capacidades do C-130 Hercules, pois possui outra arquitetura de propulsão e desempenho, buscando atender a requisitos operacionais que evoluíram ao longo das últimas décadas.

Os números mostram que o cargueiro brasileiro apresenta vantagens importantes em velocidade e capacidade de carga. Entretanto, seria equivocado concluir que ele substitui integralmente o Hercules em todas as missões.
O C-130J possui características próprias, experiência operacional acumulada e uma versatilidade que explica sua permanência no mercado mundial.
A questão central da disputa comercial não é apenas saber qual aeronave é melhor, mas qual oferece a melhor combinação de desempenho, custo operacional, disponibilidade, suporte logístico e adequação às necessidades de cada força aérea.
Quando a Lockheed Martin destaca os mais de 2.700 unidades de C-130 produzidos e compara esse número com a quantidade de KC-390 construídos, está recorrendo à história e à escala industrial de uma família de aeronaves que começou a voar em 1954. O KC-390, por sua vez, realizou seu primeiro voo em 2015.
O KC-390
Desenvolvido para atender inicialmente a uma necessidade operacional da Força Aérea Brasileira (FAB), o KC-390 “Millennium” tornou-se um dos mais importantes produtos da indústria aeroespacial nacional. Mais do que substituir aeronaves antigas, o cargueiro desenvolvido pela Embraer passou a disputar um mercado internacional tradicionalmente dominado por fabricantes norte-americanos e europeus.
O desempenho comercial do programa nos últimos anos demonstra essa evolução. Países da Europa, Ásia, Oriente Médio e América Latina passaram a demonstrar interesse ou selecionar a aeronave, transformando o KC-390 em um produto de exportação estratégico para a indústria brasileira.

Uma carteira internacional em expansão
O crescimento das vendas ganhou força especialmente a partir de 2023, quando a Coreia do Sul selecionou o KC-390. No ano seguinte, a aeronave conquistou novos clientes: Holanda, Áustria, República Tcheca e Uzbequistão. Em 2025, a Suécia também confirmou sua escolha, enquanto Portugal formalizou a aquisição de uma sexta unidade.
Considerando os países com aquisição ou seleção anunciada, o programa já alcançou pelo menos uma dúzia de mercados nacionais identificados publicamente, além de um cliente cuja identidade não foi divulgada em informações anteriores da empresa.
É importante distinguir pedidos firmes, aeronaves selecionadas e opções de compra. Os números divulgados pela Embraer e pela imprensa especializada nem sempre representam a mesma categoria comercial.

Em outubro de 2026, a publicação especializada Asian Military Review informou que o programa já havia ultrapassado a marca de 60 pedidos e seleções, além de contar com 29 opções de compra. Na mesma publicação, foi informado que 16 aeronaves já haviam sido entregues aos operadores.
Esses números mostram a dimensão alcançada pelo programa, mas não significam que todas as unidades estejam contratadas de maneira definitiva. As opções representam possibilidades de compras futuras, enquanto as seleções podem anteceder a assinatura dos contratos.
Outro indicador importante é o crescimento da carteira de clientes. O KC-390 já foi entregue a operadores de diferentes regiões, incluindo Brasil, Portugal, Hungria, República Tcheca e Uzbequistão. A entrada de novos operadores amplia a presença internacional da aeronave e cria oportunidades para contratos de manutenção, treinamento e suporte logístico.
O mercado europeu e a OTAN
Um dos aspectos mais significativos da expansão comercial do KC-390 é sua aceitação entre países integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Portugal, Hungria, Holanda, Áustria, República Tcheca, Suécia e Grécia representam importantes conquistas nesse mercado. A escolha por países que operam sob padrões de interoperabilidade da aliança militar demonstra a capacidade da aeronave brasileira de atender a requisitos operacionais exigentes.

A participação portuguesa nesse processo também merece destaque. Além de ter sido o primeiro cliente de exportação, Portugal participou do desenvolvimento e da adaptação da aeronave aos requisitos da OTAN. Essa experiência contribuiu para ampliar as possibilidades comerciais do KC-390 entre países aliados.
O acordo com a Grécia, em novembro de 2026, representa mais um passo nessa direção. O negócio prevê a transferência de três aeronaves portuguesas, com a primeira entrega programada para 2027.
Uma disputa por um mercado bilionário
A Embraer estima que exista um mercado potencial de aproximadamente 450 aeronaves da categoria nos próximos 20 anos. Trata-se de uma oportunidade significativa, especialmente diante do envelhecimento das frotas de transporte militar em diferentes países.
Nesse cenário, o KC-390 apresenta alguns diferenciais competitivos: capacidade de transportar até 26 toneladas, velocidade de cruzeiro elevada, capacidade de operar em pistas não preparadas e versatilidade para cumprir missões de transporte, lançamento de cargas e paraquedistas, evacuação aeromédica, busca e salvamento e reabastecimento em voo.
O principal concorrente nessa categoria é o consagrado C-130 Hercules, da norte-americana Lockheed Martin, presente em dezenas de forças aéreas ao redor do mundo. A disputa não se limita à venda de aeronaves novas, mas envolve também a substituição de frotas antigas e a conquista de contratos de suporte por décadas.


