Pipe-line: a obra americana que ninguém vê e foi responsável pela expulsão do Eixo de Natal

Natal/RN, dezembro de 1941, um operário da Standard Oil Company se aproxima de uma caixa de inspeção da empresa, onde estão cerca de três grandes válvulas reguladoras de vazão de um complexo sistema de ramais que compõem o oleoduto com tubos de metal com 6 polegadas de diâmetro e que recebe o combustível diretamente de navios tanques antes de serem depositados em grandes depósitos cilíndricos sobre as dunas, bem próximos da igreja dos Santos Reis, um marco arquitetônico do bairro que leva o mesmo nome.

Esse simples gesto de fechar a válvula da tubulação de metal foi um marco histórico pois limitou propositalmente o sistema de abastecimento, que tinha uma capacidade diária de fornecer até 100 mil litros dia de combustível. A diminuição dessa vazão tinha um propósito claro: não abastecer os aviões da empresa italiana Linee Aeree Transcontinentali Italiane (LATI), que utilizava a cidade como porta de entrada e saída dos passageiros da Europa em direção à América.

O motivo dessa decisão se baseava na entrada dos Estados Unidos na segunda guerra mundial, em 8 de dezembro de 1941, após o ataque japonês ao arquipélago de Pearl Habor. Com isso, a Itália se declarou inimiga da América, portanto, o acesso ao combustível americano foi cortado de imediato inviabilizando qualquer possibilidade de operação pois não existia outro fornecedor. O efeito foi tão devastador, que os funcionários da LATI em Natal abandonaram seu posto avançado – hangar, hotel de trânsito e aeronaves – do dia para a noite, como verdadeiros inimigos. Talvez essa história e o que aconteceu com os aviões mereçam um post especial um dia aqui no blog.

E vale citar que durante meses, entre 1939 e 1940, italianos e franceses conviveram em Parnamirim, enquanto suas nações disputavam espaço na Europa e nas colônias do Norte de África como inimigos mortais. O mesmo aconteceu com americanos e alemães às margens do Rio Potengi, dividindo o espaço do complexo da Rampa, enquanto o primeiro abastecia os ingleses com armamentos e suprimentos, usados em combate contra o segundo. Em junho de 1940, os franceses se renderam aos alemães na Europa e pouco tempo depois esse fato despertou preocupação dos americanos em Natal que de imediato confiscaram o combustível da Air France que estava estocado em tambores.

Voltando aos tubos. O combustível era um insumo fundamental para a máquina de guerra. Até a instalação desses ramais, o derivado do petróleo era transportado em tambores a partir de Natal, que iam de trem da Ribeira até uma estação de desembarque próximo a São José do Mipibu, e de lá seguia de caminhão até Parnamirim. Um operação insegura e frágil em tempos de guerra e diante da demanda crescente que surgia em Parnamirim Field de maneira velada, até 1942, quando o Brasil declarou guerra ao Eixo.

Nos anos 1940, a construção da base de Hidroaviões americana disfarçada de estação de passageiros da Pan Am – a Rampa – chamava a atenção dos alemães, que estravam a cerca de 200 metros de distância. O limite entre estadunidenses e os alemães é o atual Iate Club. No limite físico das duas instalações, coincidentemente, estava o principal ramal do pipe-line. A movimentação dos operários e a pressa em construir essa estação de passageiros civil chamava a atenção dos alemães principalmente pelo tamanho da obra, que na teoria receberia 1 ou 2 voos por semana.

De fato os alemães não permaneceram em Natal para ver o que iria abrigar naquela base de hidroaviões, pois com a invasão da Polônia em 1º de setembro de 1939, o terceiro Reich colocou todo seu esforço industrial em favorecimento da indústria bélica, isso afetou a Lufthansa que decidiu não fazer mais voos sore o Atlântico Sul e teve os pilotos recrutados e seus meios colocados à disposição do país. Consequentemente, também não viram o pipe-line sendo instalado, nem seus anos de glória. E quase com certeza, também seriam afetados com o corte de combustível se tivessem permanecido operando.

Dando uma pausa a essa linha do tempo, vamos para 21 de outubro de 2026. Operários contratados por uma empresa terceirizada da Prefeitura de Natal estavam realizando uma intervenção de engenharia civil no largo da Rua Coronel Flamínio, cuidando da colocação do piso Inter travado da via e iriam iniciar a marcação de uma pequena praça. No caminho desse processo, existia uma estrutura quadrada de concreto, medindo cerca de 2 metros de lado, que foi totalmente demolida. Essa edificação em si não tinha muito valor histórico, contudo, o que estava dentro dela sim. Era o pipe-line.

A linha de tubos

O pipe-line foi executado a partir de um projeto do Air Transport Command (ATC), um braço do esforço de guerra do Exército dos EUA em transportar aeronaves e mantimentos para os países aliados durante a guerra e tinha em Natal um importante hub. Estamos falando de uma tubulação com quase 24 quilômetros de extensão, responsável pelo abastecimento dos aviões com combustível. Ela recebeu o nome de pipe-line – em português linha de tubos – e se estendia desde o bairro de Santos Reis até a base de Parnamirim, deixando o porto às margens do Rio Potengi, passando pelos tanques de combustível erguidos pela StandardOil, até a comunidade conhecida como alto de São Manuel em Petrópolis, margeando a pista – Hermes da Fonseca e Salgado Filho – até seu destino final pela BR-101.

Estudando uma antiga planta do arquivo da Standard Oil Company of Brasil identificamos que o pipe-line possuía diâmetro de 6 polegadas, o equivalente a um tubo de 150 milímetros. Quando operários revelaram esse ramal recentemente, podemos comprar essa informação no local. O documento registra ainda que, a rede de tubos atinge a cota máxima de 72,07 metros acima do nível do mar e devido o relevo acidentado, o sistema de abastecimento de combustível precisa vencer uma série de desníveis provocados pela presença de dunas, com alturas variáveis entre 11 e 60 metros em média.

Precisamos reconhecer que a inventividade e a engenharia civil é uma arma fundamental numa guerra e o pipe-line é apenas um exemplo disso em Natal. Por meio do planejamento, os engenheiros resolveram o principal problema que era o abastecimento dos aviões e carros de Parnamrim Field e para isso tiveram que encontras inúmeras soluções, sobre que tipo de sistema utilizar, como vencer a distância do porto e o relevo da região. A ideia foi considerada simples pelo ATC, porém pioneira no Brasil. O pipe-line foi a primeira linha de bombeamento totalmente subterrânea do país e fruto do esforço de guerra com capacidade de se manter em operação mesmo sob ataque ou bombardeios. O projeto começou a ser concebido no fim de 1941, iniciado de maneira tímida com trabalho braçal e com ajuda da tração animal, jumentos e mulas, segundo consta no relatório do ATC datado em 1945.

Nesse relatório do ATC (1945) foi descrito as dificuldades encontradas em 1942 pelos técnicos para a realização da obra, que incluía além dos tubos, os tanques de armazenamento com mais de 400 mil litros e as bombas de sucção, utilizadas para vencer os aclives do relevo acidentado, pois os declives eram um bom sinal, graças ao efeito da gravidade.

Documento do ATC sobre a construção do “pipe-line” (Acerto do autor)

Os tanques de combustível estão localizados em uma região de dunas de areia, e durante o tempo de suas construções, a mula tiveram seu dia de glória. O vento era constante, e uma carga transportada para fora deste lugar correspondia a duas cargas na direção oposta devido ao efeito dos ventos. O trabalho foi realizado dia e noite, e o maior tanque de gasolina foi completado em 16 dias, com resultados inéditos no Brasil. Imediatamente depois disso, dois mil trabalhadores, também trabalhando 24 horas por dia, construíram uma tubulação de 24 quilômetros de extensão, completamente subterrânea, no incrível tempo de 22 dias. A gasolina indispensável para os aviões de Parnamirim, era bombeada de Natal através de um tubo, com as válvulas de segurança indispensáveis para a operação. (ATC, 1945).

As informações apontam a necessidade primordial para a continuidade das atividades aéreas e da própria base. Estima-se que mais de 100.000 litros eram utilizados por dia. Antes do pipe-line, o combustível era descarregado no Porto de Natal e seguia de trem até São José do Mipibu, pois Parnamirim não contava com estação ferroviária e mesmo se tivesse, havia a limitação dos 8.000 litros por viagem (PINTO, 1993). Sendo assim, a melhor alternativa foi a construção do pipe-line.

Em uso, ele possibilitaria o armazenamento constante de 400 mil litros, o que atendia os milhões litros necessário mensalmente, principalmente nos meses em que aumentou o número de aviões passando por Natal, quando havia operações dos aliados, a exemplo da tomada definitiva do Norte da África e Mediterrâneo, libertação da Sicília e o Dia-D com a operação Overlord. A mesma necessidade foi vista no final da guerra, enquanto as tropas retornavam do fronte de batalha com destino os Estados Unidos.

Vista aérea da Rampa com os tanques da Standard Oil Company no canto esquerdo (Foto: acerco do autor)

Outros desafios enfrentados pelos engenheiros foram a questão financeira e o risco constante de sabotagem da obra. Como uma necessidade vital, o fornecimento de combustível obteve atenção e recursos por parte do ATC, totalizando dois milhões de dólares ou 60 milhões de cruzeiros, mais a aquisição de 60 modernos caminhões tanques ao custo de 25 milhões de cruzeiros, utilizados no reabastecimento dos aviões em Parnamirim Field. Além do combustível dos aviões, o pipe-line era responsável por abastecer mais de 600 veículos, com cerca de 500 mil litros por mês. Se considerar uma frota de caminhões médios e pesados – com 75 litros em média no tanque de cada veículo – cada carro precisava encher o tanque a cada três dias no mês, ou seja, 10 idas a bomba de combustível.

Ou seja, era algo vital tanto para manter os aviões no ar como os caminhões rodando no solo, pois estamos falando de uma frota que envolvia carro militares diversos, mas também, ambulâncias, guinchos, jeeps, entre outros.

Durante toda a guerra, manteve-se um serviço de guarda que abrange todas as operações do ATC, e até hoje, as forças armadas ou as quatro Forças Armadas cooptam na proteção da linha de tubos contra atos de sabotagem (ATC, 1945).

O pipe-line permaneceu escondido por décadas assim como sua importância para o esforço de guerra. Ao longo desses anos sua existência virou quase uma lenda urbana, até que nos anos 1970, por ocasião de uma obra na margem da BR-101, a tubulação foi perfurada acidentalmente e o combustível residual teria jorrado.

Tanques da Rampa sendo instalados, antes da necessidade o pipe-line (Foto: Life)
Tanque sendo desenterrado durante obra na Rampa (Foto: Leonardo Dantas)