O documento secreto que revelou o medo americano de uma invasão alemã em Natal

Essa foi uma conclusão do brigadeiro do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos, Robert L. Walsh, ao inspecionar as instalações de Parnamirim Field, em julho de 1942, como comandante do United States Army Forces in South America ao visitar Natal.

A frase consta em um relatório classificado à época como “Secreto” e revela que o temor de um ataque alemão não preocupava apenas as autoridades brasileiras. Os próprios militares norte-americanos, poucos meses após o ataque japonês a Pearl Harbor, enxergavam vulnerabilidades que poderiam comprometer a principal base aérea aliada no Atlântico Sul.

No artigo anterior desta série – O plano de defesa passiva antiaérea de Natal e o terror dos black-outs mostramos como os blecautes e os exercícios de defesa passiva transformaram a rotina dos moradores de Natal entre 1942 e 1943. Mas uma pergunta não foi respondida: os militares americanos realmente acreditavam que os alemães poderiam atacar o Nordeste brasileiro?

A resposta é mais complexa do que um simples “sim” ou “não”.

Hoje sabemos que uma invasão alemã ao Brasil era um cenário extremamente improvável. A distância entre a África e a América, as limitações logísticas da Alemanha Nazista e a incapacidade de manter uma força expedicionária através do Atlântico tornavam essa operação praticamente inviável. Entretanto, em meados de 1942, essa certeza ainda não existia. A lembrança do ataque surpresa a Pearl Harbor, em dezembro de 1941, estava viva entre os comandantes americanos, que não desejavam repetir o erro de subestimar o inimigo.

Esse clima de apreensão era alimentado por informações de inteligência e também por documentos que circulavam entre governos aliados. Um dos mais conhecidos foi o suposto mapa alemão que mostraria um plano de reorganização política da América do Sul após uma eventual conquista nazista, datado como outubro de 1941.

Décadas depois, sua autenticidade passou a ser fortemente questionada, sendo atribuída por diversos pesquisadores a uma operação de desinformação conduzida pela inteligência britânica, a British Security Coordination (BSC), que nos EUA era administrada pelo espião canadense Willian Stephenson. A teoria se torna ainda mais interessante pois coloca como um dos agentes envolvidos,  o oficial naval Ian Fleming, que anos mais tarde se tornaria mundialmente conhecido como criador do agente secreto James Bond. Independentemente de sua origem, esse episódio ajuda a compreender o ambiente de desconfiança e de permanente vigilância que cercava Natal durante a guerra.

O famoso mapa “fake” com os países da América do Sul com nomes em alemão

Foi nesse contexto que Robert L. Walsh chegou à base de Parnamirim Field.

Recém designado para a região, o brigadeiro encaminhou ao Quartel-General do South Atlantic Wing Air Transport Command (SAW/ATC) um relatório detalhado sobre as condições defensivas da base. O documento, datado de julho de 1942, apontava uma série de vulnerabilidades que, em sua avaliação, poderiam facilitar um eventual ataque inimigo.

Entre as principais preocupações estavam a inexistência de baterias antiaéreas, a ausência de radares capazes de fornecer alerta antecipado e a falta de uma unidade aérea preparada para responder rapidamente a uma incursão inimiga. Walsh também chamou atenção para o armazenamento inadequado de combustível, concentrado em uma única área, aumentando significativamente o risco de incêndios e explosões caso a base fosse atingida.

General Robert L. Walsh, o primeiro da esquerda em pé, durante a Conferência do Potengi em 1943 (Foto: Acervo do autor)

A infraestrutura também foi alvo de críticas. Segundo o oficial, os hangares careciam de proteção estrutural, as aeronaves permaneciam expostas ao longo da pista, não existiam sistemas eficientes de camuflagem e sequer haviam sido construídas trincheiras para proteger instalações consideradas essenciais, especialmente nas proximidades do Quartel-General. Chama atenção, ainda, sua recomendação para a instalação de radares em Parnamirim Field, tecnologia que ainda representava uma das mais recentes inovações militares da época.

Alguns trechos do relatório ajudam a dimensionar o nível de preocupação do comandante americano:

“7. Alguma providência deve ser tomada imediatamente para o fornecimento de armas que permitam, pelo menos, uma defesa simbólica. Metralhadoras e munições — sendo uma boa proporção delas de calibre .50 — impediriam que os aviões inimigos metralhassem à vontade nossas forças. Estas deveriam ser apoiadas por defesas antiaéreas de maior calibre, para manter os aviões inimigos na maior altitude possível. O General Eduardo Gomes planeja, assim que puder, fornecer a infraestrutura necessária, mover sua unidade de perseguição para Natal, e estou tomando providências para ajudar a fim de agilizar esse deslocamento.”

“10. Finalmente, para futura consideração ou planejamento, caso as condições no Nordeste do Brasil se tornem definitivamente críticas, recomendo posicionar nesta área um regimento de infantaria aerotransportada e uma ou mais unidades antiaéreas preparadas para deslocamento imediato ao Brasil. Que munições e armamentos sejam previamente distribuídos aos pontos estratégicos e que oficiais e graduados conheçam antecipadamente as posições que deverão defender.”

“11. O assunto deste relatório foi cuidadosamente considerado. Os equipamentos e pessoal adicionais recomendados acima representam o mínimo necessário para essa finalidade.”

O relatório demonstra que, mesmo sem evidências concretas de um ataque iminente, os americanos trabalhavam com o princípio da prevenção. A experiência de Pearl Harbor havia ensinado um duro ensinamento: ignorar uma possibilidade considerada remota poderia ter consequências desastrosas.

No mesmo memorando, Walsh comunica ao comando que adotou medidas emergenciais e outras de médio prazo. De imediato, trocou o comando da base de Natal passando para o tenente coronel Jasper Bell, sem informar o nome do antecessor, e colocando o tenente-coronel Manuel J. Asensio responsável pela defesa do perímetro. Ordenou a dispersão das aeronaves pelo pátio, para evitar uma grande concentração e maiores danos em caso de ataque, bem como a distribuição dos tambores de combustíveis e providenciou a camuflagem dos prédios. Ele solicitou que cada oficial portasse pistolas e mais homens.

O general conclui o memorando falando da facilidade em montar uma linha defensiva ao redor de Parnamirim Field, pois se encontra em local isolado e distante do centro urbano, bem diferente do que se via em Recife, apesar que as duas bases estariam na mesma situação do ponto de vista de alvo para os inimigos. Por fim, ele pontua que já conversou com o general Gomes (Brigadeiro Eduardo Gomes) a respeito da necessidade de transferir uma unidade aérea de ataque da FAB para Natal e investimento em treinamento de pessoal, inclusive com a utilização de veículos leves (1/4 de tonelada), os jeeps.

Curiosamente, diversas das preocupações levantadas por Walsh começaram a ser enfrentadas pouco tempo depois. Ainda em 1942, confirmou-se a instalação do 3º Regimento de Artilharia Antiaérea (3º RAAAe) em Natal, além do reforço da atuação da Força Aérea Brasileira na vigilância do litoral nordestino. As medidas somavam-se ao sistema de defesa passiva já implantado pelas autoridades brasileiras, composto por blecautes, postos de observação, treinamentos da população e rígido controle da iluminação da cidade.

Assim, embora uma invasão alemã ao Nordeste brasileiro jamais tenha se concretizado, documentos como o relatório de Robert L. Walsh mostram que essa hipótese foi tratada com absoluta seriedade pelos comandos militares dos Estados Unidos e do Brasil. O medo de um novo “Pearl Harbor” ajudou a acelerar investimentos em defesa e contribuiu para transformar Natal em uma das cidades mais fortemente militarizadas do Atlântico Sul durante a Segunda Guerra Mundial.

Link relacionado: