Em janeiro de 1943, uma investigação de espionagem contra alemães no Brasil revelou que Natal seria um dos principais pontos de passagem de simpatizantes do nazismo que retornavam para a Alemanha a partir das Américas. Os fatos são intrigantes e demonstram como essa rede de espionagem agiu livremente por meses e como se relaciona com um dos principais capítulos da Segunda Guerra Mundial, o desfecho do afundamento do cruzador Admiral Graf Spee, na bacia do Rio da Prata, em 1939.

O blog tomou conhecimento dessa história ao pesquisar documentos no Arquivo Nacional Brasileiro (ANB), onde encontrou uma apelação destinada ao Tribunal de Segurança Nacional, de 19 de abril de 1943, em nome do cidadão alemão Niels Christian Christensen, também identificado como Josef Jacob Johonnes Starzicnvy. Contra ele, havia a acusação de ser um espião e transmitir mensagem a partir do Rio de Janeiro para outros agentes alemães.
“Informo a V.S. que o rádio transmissor de telegrafia, com alcance de 10 a 15.000 quilômetros, adaptado numa mala; um aparelho receptor marca “Halligraftess” (…) e um teste destinado a medir amperes, arrecadados na residência de Niels Christian (…)”, conta um memorando da Polícia Civil do Distrito Federal, de 6 de novembro de 1942.
O documento também lista uma bússola “Benzard-Kompass” e um microscópio destinado a leitura de mensagem microfotográficas. A polícia aprofundou a investigação chegando até um laboratório clandestino de envio de mensagem por telegrafia e fabricação de rádios, em um dos endereços de Niels. Um laudo confirma a capacidade de produção de mensagem – transmissão e receptação – e as transmissões transcontinentais em condições ideais.

Essa investigação seguia seu rumo e parecia ter um desfecho, até que em janeiro de 1943, ao cumprir uma diligência, os agentes da Polícia Civil receberam uma informação inusitada.
Eles estavam tentando localizar um dos endereços fornecidos pelo investigado e chegando ao local interrogaram o casal de austríacos alemães, Karl Wolfschutz e Anna Wolfschutz, que eram proprietários de uma pensão desde 1938, e que em dezembro de 1940, haviam hospedado dois homens por seis dias a pedido da Embaixada da Alemanha, identificados como Karlo Vitz e Schkuerurj.
Nesse momento da história, o senhor Karl revela que cem conversa com com os dois hospedes, ouviu deles, que eram sobreviventes do Graf Spee e que ambos deixariam o Brasil a bordo de um avião da LATI (Linee Aeree Transcontinentali Italian) com destino à Europa, a partir de Natal, em alguns dias. Os dois homens na verdade eram Hans-Georg Von Carlowitz e Ghunter “Günter” Schiebusch, ambos primeiro tenentes (Oberleutnant Zur See) da Marinha Alemã, tripulantes do Admiral Graf Spee e fugitivos de guerra, pois os ingleses estavam a sua procura.

O GRAF SPEE
Em agosto de 1939, poucos dias antes da Alemanha invadir a Polônia e dar início e Segunda Guerra Mundial, o cruzador Admiral Graf Spee zarpa para o mar em direção ao Oceano Atlântico transportando mais de mil tripulantes e sob o comando do capitão Hans Langsdorff. Com o início da Segunda Guerra, em setembro de 1939, a Kriegsmarine – Marinha Alemã – ordenou ao capitão Hans Langsdorff que atacasse navios inimigos, provocando a primeira batalha do Atlântico ao afundar a embarcação mercante de bandeira inglesa “Clement”, próximo à costa de Alagoas, no Brasil.

O Graf Spee era um gigante de 186 metros de comprimento, 21 m de boca e 7,4 m de calado. Ele tinha um deslocamento pleno de 16.000 toneladas – 60% a mais do que a Alemanha podia possuir em embarcações de Guerra por causa do Tratado de Versalhes – a uma velocidade de 52 km/h e armado com seis canhoes de 11 polegadas montados em duas torres triplas e bateria secundária de oito canhoes de 5,9 polegadas em torres simples, além de baterias antiaéreas, lançadores de torpedos e uma catapulta para lançar hidroaviões.
Era de se esperar que o poderoso navio chamasse atenção e foi justamente isso que aconteceu, com ele se escondendo perto da costa do nordeste brasileiro e antes de se deslocar em direção ao sul, até chegar próximo do Uruguai, onde foi interceptado em 13 de dezembro de 1939, por três navios de guerra britânicos: Exeter, Ajax e Achilles. Apesar de em maior número e com a estratégia de se dividirem para diminuir a capacidade de ataque do Graf Spee, o alemão saiu navegando após intensa batalha, sendo avariado teve que seguir em direção ao porto de Montevidéu.
O Uruguai se mantinha neutro no conflito e permitiu que o Graf Spee ancorasse na condição de partir em 72 horas. Sem possibilidade de conserto e confirmação de que o reforço chegaria a tempo da Alemanha, o comandante Hans Langsdorff tomou uma das decisões mais controversas da guerra até os dia atuais, ao determinar o desembarque dos quase 1.000 tripulantes, enquanto permaneceu no navio junto de outros 30 oficiais. Eles desatracaram e seguiram por quase 7 km pela bacia do Rio da Prata, onde subiram em botes, se afastaram e explodiram o Admiral Graf Spee. Alguns dias depois, chegaram na Argentina onde foram internados – para não dizer detidos – na Ilha de Martin García.

Langsdorff declarou que tomou a decisão para poupar a vida dos marinheiros diante de uma batalha perdida para uma frota que os aguardavam em alto mar, quando estavam avariados, sem reforço e com quase 60 mortos na conta. Em 20 de dezembro de 1939, o comandante vestiu seu melhor traje e tirou a própria vida com sua arma de fogo.
VON CARLOWITZ E SCHIEBUSCH
Voltando ao tema central desse post. Alguns sobreviventes do Graf Spee permaneceram no Uruguai, mas a maior parte deles foram conduzidos para a Argentina na condição de internos na Ilha de Martin García. Nove meses após a batalha, em 31 de agosto de 1940, o primeiro-tenente Schiebusch liderou uma audaciosa fuga do campo de prisioneiros, quando dezenas de sobreviventes conseguiram deixar o loca, sobretudo os oficiais que não ficavam reclusos em celas.
Um dos casos mais famosos é de Oficial de Navegação Jurgen Wattenberg, que conseguiu retornar a Europa com ajuda da Abwehr (o serviço de inteligência militar alemão) e embaixada alemã em Buenos Aires. Ele teve acesso a uma nova identidade – a teoria mais provável é que tenha assumido a identidade falsa como um técnico dinamarquês ou suíço – que ajudou a embarcar em um navio vapor no Chile. Em 1942, ele é detido novamente e desta vez pelos americanos que o levam aos EUA, de onde foge em 1945. Ao ser recapturado, ele revela detalhes da fuga de 1939, expondo os colegas que usaram aviões ao invés de navio, citando nominalmente a empresa LATI. Esse caso resultou em uma investigação maior por parte do Federal Bureau Investigation (FBI), chamado “relatório Wattenberg”.

No Brasil operavam diversas empresas aéreas estrangeiras como a francesa Air France, a alemã Lufthansa, a italiana LATI e americanas como a Pan Am e TWA. O início da guerra na Europa muda esse cenário. Na Lufthansa, pilotos civis tornaram-se militares, rotas comerciais deram lugar a missões estratégicas e a aviação alemã revelou, sem disfarces, sua função dentro do esforço de guerra do Terceiro Reich. A guerra trouxe consequências para o Brasil, pois a Lufthansa decidiu suspender os voos transatlânticos, por isso, o envolvimento da LATI na rota de fuga.
O uso de aviões foi o caso de Von Carlowitz e Schiebusch. Eles perceberam que navios eram mais lentos e passíveis de fiscalização nos portos e sujeitos ao bloqueio dos britânicos, então para chegar até o Rio de Janeiro, os nazistas se deslocavam nos mais diversos meios, mas sempre com o uso de identidades falsas e com uma verdadeira rede de apoio coordenada pela embaixada alemã na Argentina e Brasil.
Os relatórios americanos citam que voos inteiros da LATI podem ter sido usados com o propósito de transportar alemães clandestinamente até Natal e depois Europa. Essas pessoas ficaram conhecidas como “passageiros fantasmas” e eram acompanhadas pelo Serviço Especial de Inteligência (Special Inteligence Service – SIS), um órgão com agentes espalhados por toda a América do Sul e com ligações com o FBI. Os agentes do SIS passaram a atuar mais fortemente após dezembro de 1941, devido a entrada oficial dos EUA na guerra. Ou seja, por quase dois anos os clandestinos puderam passar livremente por Natal.


O ano 1942 foi um ponto de virada e um duro golpe contra essa operação de espionagem, pois o Brasil rompeu relações com a Alemanha e o aumento no número de navios mercantes brasileiros afundados cresceu, ganhando as páginas dos jornais e despertando um sentimento nacionalista anti-germânico. Em Natal, o Departamento de Segurança Pública passou a atuar e ser mais rígido na investigação de cidadãos alemães e italianos, seguindo inclusive os passos do cônsul de Recife, Josef Schimd que frequentemente passava em visita à cidade. Todas as pessoas que ele mantinha contato foram interrogadas e tiveram correspondências violados com o argumento da defesa nacional.
Os investigadores chegaram a conclusão que natalenses estavam prestando apoio aos conspiradores e desde 1940, com informações sobre o trânsito de navios no porto, as viagens dos aviões da LATI e até o número de militares e aviões na cidade. Essas correspondências apreendidas cita um fato curioso, no qual o embaixador Schimd tenta convencer padres alemães e italianos que estavam pela congregação Sagrada Família poderia ajudar na disseminação dos pensamentos nazistas.

Essa rede de espionagem foi desfeita com o passar dos anos. Em 1942, um relatório da Comissão Parlamentar Especial de Atividades Anti-argentinas da Câmara dos Deputados da Nação, reconheceu a intervenção da Embaixada Alemã e pede que tornem o o adido naval da Embaixada Alemã “persona non-grata” ao identificar que dos 30 presos, cerca de 19 conseguiram fugir com documentos falsos.
A Comissão Parlamentar de Investigação das Atividades Anti-Argentinas recomendou ao Poder Executivo tornar persona non grata, o adido naval da Emabaixada da Alemanha, o comandante Dietrich Nieburn por sua falta de conduta no caso dos marinheiros sobreviventes do Graf Spee, até então internados na Argentina e que fugiram.

Um dado interessante é que muitos oficias do Graf Spee que conseguiram retornar à Europa fizeram uma carreira de sucesso na Marinha Alemã, a exemplo do primeiro-tenente Schiebusch, chegando a ocupar o comando do submarino U-262. Os serviços de inteligência americanos e ingleses estimaram que até 1945, cerca de 150 sobreviventes do Graf Spee retornaram para a Alemanha, com dezenas passando por Natal utilizando documentos falsos e voos da companhia italiana LATI.

