O plano de defesa passiva antiaérea de Natal e o terror dos black-outs

Difícil imaginar um tempo em que toda a cidade tinha que apagar as luzes e os transeuntes precisavam seguir normas rígidas de deslocamento, pois essa escuridão e o silêncio era parte de uma importante medida de proteção e poderia ser a diferença entre a vida e a morte. Vamos além, convidamos o leitor a imaginar o diálogo de um pai com um filho ou filha de uns 9 anos, indagando o porquê do apagar das luzes: “pai por que precisamos apagar as velas e desligar o rádio esta noite?”.

Estamos falando do tempo em que Natal viveu os black-outs (ou blecautes) como medida de defesa passiva e ainda possuía medidas ativas, com pontos de observação e baterias antiaéreas espalhadas pela cidade para garantir a segurança da população e das bases militares instaladas por causa da Segunda Guerra, tanto brasileiras como americanas. As contramedidas faziam parte de um plano de salvaguarda caso a cidade sofresse algum tipo de ataque aérea ou tentativa de invasão por parte dos alemães.

Caminhão transportando holofote em desfile pelas ruas de Natal (Foto: Acervo do autor)

Atualmente, é quase consenso que essa seria uma possibilidade remota, principalmente pelo rumo que a guerra estava tomando com a libertação do Norte da África, como pela limitação tecnológica à época que não permitiria um avanço tão longo de tropas sobre o Oceano Atlântico. Contudo, nos anos 1940 o assunto era levado a sério, com mapas especulando a invasão da América tendo o nordeste brasileiro como o ponto de entrada e sucesso dos alemães sobre a França e a Bélgica, bem como de suas colônias na África.

No Brasil, o assunto de uma invasão ficou mais evidente após janeiro de 1942, quando o Governo Vargas decidiu romper relações diplomáticas com a Alemanha e já contava base americanas instaladas do Pará a Bahia, contando com Natal, que desde 1941 vinha sendo rota de passagem de equipamentos militares fornecido pelo Tio Sam aos ingleses.

Continuando o nosso exercício de imaginação, como seria a reação do natalense comum ao abrir o jornal e se deparar com notícias e informes sobre bombardeios?

Pois foi essa situação que o cidadão teve que enfrentar em 26 de fevereiro de 1942, quando o Departamento de Estado da Imprensa e Propaganda (DEIP) encaminhou ofício a todos os impressos informando sobre os primeiros black-outs e risco real de um ataque sobre Natal, devido a presença das bases e importante posição geográfica. Ironicamente, no mesmo documento, as autoridades pedem calma à população em se tratando de uma situação real.

A defesa passiva de Natal

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Em notas sucessivas, temos procurado elucidar para o povo em geral o sentido e a finalidade dos conselhos e advertências que as autoridades militares têm feito divulgar, relativamente às medidas a serem tomadas na eventualidade de um ataque aéreo a esta capital. Todos, portanto, já devem estar perfeitamente esclarecidos de que o objetivo dessas providências não é outro senão o de educar e instruir a população sobre a maneira de se conduzir em tal emergência, de modo a facilitar a ação dos encarregados da nossa defesa a evitar que os próprios habitantes encontrem o ambiente de missão e terror que tanto nos tem favorecido noutras oportunidades, como sucedeu com a debandada de França e da Bélgica.

Sabe-se naturalmente que o Natal é um ponto visado pela aviação inimiga como importante ponto geográfico, e que, se algum ataque tiver de ser levado a efeito contra o Brasil, será esta cidade o alvo mais próximo e, por conseguinte, o primeiro a ser atingido. Mas, é isto uma conjectura, formulada tão somente em vista desta situação estratégica, sem que implique a existência de qualquer perigo iminente, de qualquer ameaça efetiva e real, prestes a se desencadear sobre as nossas cabeças. O fato de precisarmos tomar certas, com a nossa melhor organização e vigilância, as medidas de preparos, é uma pura questão de previdência, ditada por uma prudência sensata compatível de que, nesta hora tão fértil em surpresas e imprevistos, ninguém deve esperar pelo estado de guerra para se aparelhar contra ela.

Com essa finalidade é que as autoridades têm procurado orientar a população e instá-la sobre a utilização dos bons instrumentos de defesa passiva contra ataques da natureza. Dentro de alguns dias, nós a população, conhecerá o chamado black-out, que vem a ser a extinção de todas as luzes da cidade, públicas e particulares, e paralisação de todos os transportes. Assim é que publicamos hoje uma nota fornecida pela Quartel-General da 2ª Brigada de Infantaria, em que notifica os habitantes de que, proximamente, serão feitas aqui experiências nesse sentido, a fim de verificar se as instruções já divulgadas pelas referidas autoridades, relativamente à matéria, estão ou não em condições de, no momento, foram devidamente compreendida pela população.

Dentro de alguns dias vem sendo adotado em outras capitais, em obediência ao plano geral de defesa do País. No Recife, se realizou brevemente uma experiência de “black-out”, juntamente com outras exceções de defesa antiaérea. Isto prova que o que se vem fazendo em Natal é unicamente o desdobramento desse plano de defesa nacional, para prevenir e resguardar a integridade da nação, naquilo que esteja ao nosso alcance e dentro das nossas possibilidades.

Esse tipo de treinamento era de responsabilidade das autoridades brasileiras, no caso o Exército por meio do Serviço de Defesa Passiva Antiaérea (SDPAAe). E coincidentemente, no mesmo dia desse comunicado é divulgado a inauguração das novas instalações do 16º Batalhão de Infantaria, o famoso 16 RI, como uma organização subordinada à 7ª Região Militar. Um mês após, em 28 de março, é confirmado um segundo exercício e com impacto maior, pois envolveria as cidades de São José do Mipibu e Macaíba, além da comunidade de Papari, atual Nísia Floresta.

Em 18 de abril, também no jornal A Ordem, foi publicado um documento com 10 recomendações e ratificando a importância do engajamento da população na Defesa Passiva  Antiaérea de Natal e a colocação em prática de um Plano Geral de Treinamento para a população, prevendo o armazenamento de água, alimentos e medicamentos, além de provisão de equipamentos de defesa como máscaras, luvas, macacões de amianto, etc, pensando provavelmente em algum ataque químico ou altas temperaturas.

Assim, a família, o apartamento, o edifício público, o teatro, o cinema, o ônibus, etc, constituem unidades e cada uma delas em caso de emergência deverá atuar com autonomia suficiente a defesa dos indivíduos ali reunidos dentro da mais perfeita ordem. Mesmo nas famílias, cada um deve ter uma função definida: um se encarregará do salvamento dos valores, outro dos socorros de urgências, um terceiro se incumbe de desligar o gás e a luz elétrica ao primeiro sinal de balck-out…

Em média, cada exercício demorava de 15 minutos a uma hora e foi descrito por diversas testemunhas como um ambiente caótico e de pânico, principalmente no início, pois com o tempo a população parece ter se acostumado. Não se tratava apenas de apagar as luzes, mas de suspender qualquer tipo de locomoção por veículos automotor, extinção de qualquer fonte de luz, movimento de tropas pela cidade, os holofotes cruzando os céus em busca dos “aviões inimigos” e as sirenes que ecoavam. O alívio vinha apenas quando rodavam o som informando ser mais um exercício bem-sucedido e não ser uma situação real.

Em 26 de maio de 1942, saiu o comunicado informando à população que o black-out se estenderia por uma semana, sempre próximo das 21 horas. Como dissemos no início desse post, impossível fazer o exercício de imaginação sem uma comparação com os dias atuais. O Exército chegou a exigir a extinção total de qualquer fonte luminosa sem exceções. Isso interferiu até na rotina das missas, pois a Diocese de Natal chegou a receber um ofício solicitando a colaboração do bispo, ao pedir que as paróquias evitassem até mesmo as luzes do sacrário, onde se resguarda o Santíssimo Sacramento, pela fé Católica. Outro impacto na fé local foi a suspensão dos festejos públicos de Nossa Senhora da Apresentação, em novembro daquele ano, e que aconteceriam na catedral antiga, localizada na praça André de Albuquerque.

Recomendação para apagar lâmpada do Santíssimo (Fonte: Jornal A Ordem – 6 de junho de 1942)

Voltando alguns meses, em 10 de junho, a direção de Defesa Passiva Antiaérea Passiva de Natal chegou a anunciar a suspensão dos exercícios tendo em vista o sucesso da tentativa de um black-out de uma semana, como aconteceu. Contudo, as simulações envolvendo a população civil aconteceu até meados de 1943, cerca de um ano após seu início com alguns poucos incidentes, como moradores que se negavam a apagar as luzes ou até mesmo a obra da pista americana, conduzida pelo Corpo de Engenharia do Exército dos EUA e que se negava a parar as obras na parte da noite. A direção do SPDAAe existiu até 1948, quando foi destituída por um ato votado na Assembleia Legislativa do Rio Grande e teve entre os seus coordenadores locais, o escritor Câmara Cascudo.

O SPDAAe era comandado pelo responsável da Guarnição do Exército em Natal, no caso o 16º Regimento de Infantaria. Ao longo dos anos, a coordenação passou por: coronel Penedo Pedra (outubro de 1941 a abril de 1942), o tenente coronel Liberato da Cruz Barroso (maio de 1942 a agosto de 1943) e o coronel Nilo Horácio Sucupira (a partir de setembro de 1943). Além desses, há o registro do general Cordeiro de Farias, por um período de 1943.

Estórias na história dos blecautes

Um fato muito falado e repetido quando se lembra o tempo do blecaute em Natal foi o dia em que as coisas saíram do controle. Tudo indica que o Governo emitiu um comunicado falando da suspensão dos exercícios – provavelmente o que aconteceu em junho de 1942 – sendo assim, o então tenente coronel Sucupira teria deixado a entender que, se houvesse qualquer sinal de apagar das luzes e sirenes, é porque a situação seria real.

Entretanto, por algum motivo, nunca explicado, o Exército decidiu realizar um exercício sem informar corretamente a população que foi pega de surpresa por uma situação de pânico. De acordo com as testemunhas, o caos tomou conta das ruas, com pessoas desesperadas, procurando abrigo saindo de casa de pijamas e ceroulas. O blog não encontrou evidência documental sobre esse fato, apesar de existirem inúmeros relatos, cada um com uma visão diferente e da proporção do que realmente aconteceu.