Dos quase 160 norte-americanos que morreram em Natal durante a Segunda Guerra Mundial, apenas um foi deixado em solo potiguar. Por que? Estamos falando do sargento da Força Aérea do Exército (Army Air Force – AAF) Thomas Nonnez Browning, 22 anos, acometido de uma meningite e sepultado no cemitério do Alecrim, há exatos 80 anos, em 18 de julho de 1943.

Thomas nasceu em 25 de junho de 1922, em Cincinnati, Ohio, e era o filho do meio de Marie Nonnez Browning e John Keith Browning, que tinha outros dois filhos, também militares Exército dos EUA, John K. Browning Jr e James Randolph Browing, os quais serviram no Kentucky e Washington, respectivamente.
O nosso personagem principal ingressou nas forças armadas em janeiro de 1942, na base de Keesler Field, no Mississipi. Ao chegar no Brasil, inicialmente, serviu na Bahia por dois meses antes de vir para Parnamirim Field, pelo 22º Esquadrão de Meteorologia da AAF (22 AAF Weather Sq).

Sua passagem por Natal foi marcada pelo interesse em aprender o Português e amizades que conquistou, a exemplo do professor Protásio de Melo e o jornalista Edilson Varela, conforme consta nos livros “Natal, USA” (1995), de Lenine Pinto, e “A Contribuição Norte-Americana à Vida Natalense” (1993), escrito pelo próprio Protásio. Esses amigos chamavam Thomas carinhosamente de “Tom”, assim como seu pai.
Contudo, nada disso responde a pergunta que fizemos no início desse post, sobre a motivação de Thomas Browning permaneceu sepultado em Natal. Uma das hipóteses envolve uma terceira pessoa e suposta “noiva”. Durante anos se especulou sobre quem seria a moça. Em seu livro, Lenine conta o curioso caso das cinco irmãs da família Dantas Dubeux que teriam noivado e casado com militares norte-americanos, com exceção de moça “Inês”.
Ela não se casou pois seu amor era justamente o sargento Thomas Browning e devido ao relacionamento amoroso houve um entendimento em torno de sua permanência em Natal. Entretanto, o assunto tinha um outro contorno e foi melhor esclarecido no livro do professor Protásio de 1993, com a publicação de cartas trocadas entre o pai, J. K. Browning, o vice-cônsul americano George Colman e o então prefeito de Natal/RN, Silvio Pisa Pedroza.
Em 27 de junho de 1947, o senhor Browning envia carta ao cônsul agradecendo a informação de que o Município iria propor um decreto lei dando posse à família do túmulo. Até o dia 12 de janeiro de 1948, outras quatro cartas foram registradas entre eles para tratar da burocracia em torno da cessão e manutenção do túmulo. Em determinado momento, o pai informa que agradecerá em algum momento o amigo Protásio de Melo, destacando a atenção que teve em construir um monumento a “Tom”, no cemitério do Alecrim.
Nas últimas cartas trocadas, J.K. Browning pede ajuda do cônsul para cobrar do então prefeito, Silvio Pedroza, o envio da cópia do documento de cessão e aproveita para informar que, em 1948, o Governo dos Estados Unidos enviará uma lápide de pedra em homenagem ao filho. Em 23 de janeiro desse ano, Pedroza responde e pede desculpas pela demora em confirmar o decreto lei, afirmando que enviará com prazer a cópia.

As correspondências confirmam a tese de que a família concordou em deixar o corpo do sargento em Natal por sua relação próxima com a cidade e sociedade, sem dar detalhes sobre qualquer romance. Um fato interessante, diz respeito a existência de duas lápides, a primeira encomendada pelo amigo Protásio de Melo e uma segunda, a pedra tumular, enviada pelo Governo dos EUA, uma forma padrão e comum em filmes de guerra, arredondada no topo, na cor branca e com entalhes em baixo relevo.
Operação Glória ou Papa Defunto
A permanência do sargento Thomas N. Browning é um importante registro da guerra em Natal e de um fato histórico, a Operação Glória, que entre 1945 e 1951, recuperou e devolveu 233.181 corpos de combates americanos, oficialmente, segundo a American Battle Monuments Commission (ABMC). Outros 93 mil, assim como Tom, por algum motivo permaneceu nas localidades ou campos de batalha, contando também os desaparecidos em combate nessa conta.

Em 10 de abril de 1947, boa parte da população de Natal ocupou a Esplanada Silva Jardim, na Ribeira, para prestar a comovente e últimas homenagens aos norte-americanos mortos em solo brasileiro durante a Segunda Guerra, assim como foi noticiado no jornal A Ordem. Na ocasião, 214 caixões estavam sendo transportados em caminhões do Exército Brasileiro (EB), sendo 160 deles retirados do campo santo do Alecrim e o restante recuperado em todo o território nacional, entre americanos militares e civis.

Vale explicar, que essas mortes eram dos mais variados motivos, desde acidentes automobilísticos, aéreos, briga de bar, causas naturais ou sobreviventes dos campos de batalha que eram relocados para Parnamirim Field. Como no Brasil quase tudo vira piada ou motivo para tal, algumas pessoas chamaram a operação de “Papa Defunto”. Uma tremenda falta de respeito.
Enquanto centenas de famílias optaram pelo retorno de seus mortos aos Estados Unidos, a família Browning decidiu manter Thomas em Natal. O túmulo permanece como um dos últimos testemunhos materiais da presença americana durante a Segunda Guerra Mundial e simboliza uma história de amizade, respeito e memória compartilhada entre brasileiros e norte-americanos.
ANEXO – Correspondências:
23 de junho de 1947
THE HEEKIN CAN COMPANY Cincinnati Ohio, USA
AO PREFEITO DE NATAL RGN BRASIL (Silvio Pedrosa)
Caro Sr.: Tenho diante de mim carta do nosso Cônsul Americano em Natal, comunicando-me que V. S. mandou ao Conselho Consultivo do Estado um decreto-lei, doando às famílias dos americanos mortos no Brasil, sob título perpétuo, o terreno onde eles estão enterrados. Como deve saber meu filho Thomas N. Browning, está enterrado no Cemitério do Alecrim em Natal. Sempre senti, desde a morte de Tom, que preferia que ele ficasse em Natal, em grande parte por respeito aos seus amigos e Dr. Protasio Melo me ajudou muito, fazendo os arranjos necessários para a obtenção do terreno em que Tom está enterrado e a colocação da pedra tumular. Acho a idéia de V. Sª extremamente simpática. Gostei muito dessa atitude de V. Sª e estou pedindo ao Dr. Melo para agradecer-lhe pessoalmente, em meu nome.
Cordialmente J. K. Browning
17 de setembro de 1947
DE: THE HEEKIN CAN COMPANY Norwood 12, Ohio, USA
PARA: SR. GEORGE T. COLMAN Vice/Cônsul Americano, Natal, Brasil
Caro Sr. Colman: Não recebi mais nenhuma notícia desde sua amável carta de 10 de julho passado, com relação ao decreto-lei, mencionado naquela carta. Sabe o amigo se alguma coisa mais foi feita com relação ao referido assunto? Pergunto também se o amigo foi informado de alguma providência referente à pedra tumular oficial, enviada pelo governo americano.
Muito cordialmente, J. K. Browning
17 de outubro de 1947
DE: SERVIÇO CONSULAR DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA Consulado Americano Belém, Pará Brasil, 17 de outubro de 1947
PARA: Dr. SILVIO PEDROSA Prefeito de Natal, Brasil
Caro Silvio: Estou lhe enviando cópia de uma carta recebida do Sr. J. K. Browning, da “The Heekin Can Company”, de Norwood, Ohio, USA, datada de 17 de Setembro de 1947. Você notará que ele indaga com relação às providências sobre o decreto-lei doando a ele a posse do túmulo onde seu filho está enterrado. Ficarei grato se o amigo avisar diretamente ao referido Sr. Browning quanto às providências referentes ao caso. Fui avisado que o Governo dos Estados Unidos está enviando uma pedra tumular oficial. Quando ela chegar a Natal, estimaria que você ou o Professor Protasio Melo a recebam e possam colocá-la no cemitério. Penso muito nos amigos de Natal, e tenho saudades da cidade, suas belas praias e a brisa deliciosa. Agradeço, especialmente, a sua cortesia e as demonstrações de amizade a nós oferecidas pelo Prefeito e sua esposa. Estamos gostando de Belém. O povo é muito simpático e o tempo não é tão ruim como diziam de vez que não é a estação de chuvas e é muito agradável durante a noite. Com as mais cordiais lembranças e votos de felicidade ao amigo e sua esposa da Srª Colman e de mim pessoalmente.
Muito cordialmente George T. Colman, Vice/Cônsul americano
21 de novembro de 1947
DE: THE HEEKIN CAN COMPANY Cincinnati, Ohio — USA Norwood 12
PARA: DR. SILVIO PISA PEDROSA Prefeito de Natal, RN, Brasil
Caro Sr. Pedrosa: Muito grato por sua carta de 7 de novembro, meu filho Tom, amava o Brasil e o povo brasileiro. Por outro lado, o Dr. Protasio Melo e outros têm sido extremamente bondosos e reconhecidos a mim, que me sinto extremamente gratificado da decisão de deixar Tom enterrado em seu belo cemitério. O amigo de Tom, Dr. Melo conseguiu que eu comprasse um monumento para ser posto no túmulo de Tom e o nosso governo está mandando uma pedra tumular para o mesmo. Quando tudo estiver completado, pede ao Dr. Melo para conseguir alguém, no cemitério, para cuidar do túmulo de Tom. Sua simpática ação, no momento, me é bastante preciosa nesse respeito. Foi um prazer, em meses recentes, conhecer várias pessoas de seu país. Entre elas está Leslie Ide, de São Paulo, que em breve voltará ao Brasil. Estou pedindo a Leslie que, se for a Natal, visitá-lo e expressar-lhe, pessoalmente, meus mais sinceros agradecimentos.
Cordialmente, J. K. Browning
4 de dezembro de 1947
DE: THE HEEKIN CAN COMPANY Norwood 12, Ohio, USA
PARA: DR. SILVIO PEDROSA Prefeito de Natal, Rio Grande do Norte, Brasil
Caro Dr. Prefeito: Quando recebi sua carta de 7 de novembro, pedi a um amigo da Universidade, em Cincinnati, para fazer a tradução. Infelizmente, como deve saber, uma das falhas de todos nós, nos Estados Unidos, é nossa falta de conhecimento de outras línguas. Vocês aí no Brasil têm grande vantagem sobre nós nesse aspecto. Não fiquei satisfeito com a tradução e escrevi ao meu amigo, o Sr. Colman, em Belém, pedindo seu conselho com relação a uma expressão em sua carta, que me foi traduzida como “cuidado perpétuo”. O Sr. Colman me respondeu e meu deu a tradução correta que em inglês é, mais ou menos, o seguinte: “Tenho a honra de incluir uma cópia do decreto-lei desta municipalidade, pelo qual é concedida a posse perpétua pelas famílias dos 4 cidadãos americanos, cujos túmulos são ocupados no Cemitério do Alecrim”. Isto me informa, naturalmente, que o decreto-lei me dá a posse perpétua do túmulo do meu filho. Outra coisa que me perturbou foi que o senhor afirmou que estava me enviando uma cópia do decreto e, até agora, nada recebi. Poderia me enviar essa cópia com urgência? Poderia também, ao enviar a cópia, colocar meu nome corretamente, no final desta carta? Na sua carta de 7 de novembro meu nome estava escrito incorretamente. Acho que entende minha grande satisfação em possuir uma cópia do decreto. O Sr. Colman me disse que o seu conhecimento do inglês é excelente e, assim, sem dúvida, entenderá minha carta muito melhor do que se eu conseguir uma tradução da sua.
Sinceramente, J. K. Browning
12 de janeiro de 1948
DE: THE HEEKIN CAN COMPANY Norwood 12, Ohio — USA
PARA: Dr. SILVIO PISA PEDROSA, Prefeito de Natal, Natal, RN, Brasil.
Caro Dr. Pedrosa: Tenho em mãos carta do meu bom amigo Leslie Ide, de São Paulo, que esteve há pouco tempo nos Estados Unidos. Ele partiu de Boston no dia 9 do corrente, e creio com destino à Argentina e, a pedido meu, vai até Natal visitá-lo. Expliquei-lhe os nossos interesses e estou certo que será um prazer para ambos se conhecerem. Nunca recebi uma resposta de sua parte à minha carta de 4 de dezembro. Naturalmente, apreciaria muito receber uma cópia do decreto-lei a que se refere. Talvez possa entregá-lo ao Sr. Leslie e ele remeterá o mesmo para mim.
Muito cordialmente, J. K. Browning
23 de janeiro de 1948
PREFEITURA MUNICIPAL DE NATAL
SR. J. K. BROWNING, Norwood 17, Ohio — USA
Caro Sr. Browning: Respondendo suas cartas de 4 de dezembro de 1947 e 12 de janeiro de 1948, deixe-me dizer que sinto muito que assuntos de grande importância me impediram de enviar uma resposta em tempo hábil. Sinceramente sinto ter falhado no envio do decreto-lei Municipal em minha última carta; contudo, meu secretário, encontrou-o, e estou enviando o mesmo junto com esta carta. Seu amigo, Sr. Leslie Ide, até aqui não fez qualquer contato comigo. Assim, para um recebimento seguro do decreto, de sua parte, acho melhor enviá-lo, eu mesmo, junto com esta. Ficarei satisfeito em receber o Sr. Ide em qualquer tempo que venha a Natal. Por favor aceite minhas desculpas por estas demoras e aqui estou ao seu inteiro dispor para qualquer consulta.
Cordialmente, Silvio Pedrosa
