A defesa antiaérea em Natal durante a Segunda Guerra

Foto da capa: Acervo da família via Hudson Lima

Natal/RN, agosto de 1942 – O Serviço de Defesa Passiva Antiaérea (SDPAAe) comunica uma semana inteira de blecautes, um exercício nunca antes visto na cidade, tanto pelo período maios pois esse tipo treinamento até então durava apenas horas, como pelo uso dos abrigos e uma novidade, o acionamento real do 3º Regimento de Artilharia Atiaérea (3º RAAAe).

Depois de preparar a população para enfrentar um eventual ataque aéreo por meio de blecautes, sirenes e exercícios de defesa passiva, restava uma questão fundamental: quem protegeria os céus de Natal caso os aviões inimigos realmente aparecessem?

A resposta estava espalhada em diversos pontos estratégicos da cidade e dos arredores de Parnamirim Field. Canhões antiaéreos, metralhadoras e de soldados treinados permaneciam de prontidão, formando um escudo destinado a impedir que qualquer aeronave hostil alcançasse a maior base aérea aliada no Atlântico Sul. Além da base, outro motivo foi o rompimento das relações diplomáticas do Brasil com a Alemanha, ocorrido em 28 de janeiro em 1942.

Vale explicar que a presença militar norte-americana em Natal por consequência da Segunda Guerra Mundial, entre os anos de 1941 e 1945, trouxe uma grande preocupação para as autoridades e sociedade de forma em geral com um provável bombardeio sobre a cidade, que à época era um dos pontos mais estratégicos na linha de logística e abastecimento das tropas aliadas. A base de Parnamirim Field era uma das maiores do período e vital para manter o avanço dos exércitos no Norte da África, Mediterrâneo e Oriente (China, Birmânia e Índia).

O 3º RAAAe

Efetivo do 3 RAAAe em julho de 1943 (Foto: Acervo do autor)

O 3º Regimento de Artilharia Antiaérea foi transferido em 1º de outurbo de 1941, por determinação do Ministério do Exército, da cidade de Juiz de Fora/MG para o território da 7ª Região Militar, localizada no Nordeste. Em janeiro de 1942, chega a Natal o tenente coronel Peri Constant Bevilaqua, então comandante do 1º Grupo do 3º Regimento de de Artilharia Antiaérea, o famoso 3º RAAAe, que só se instalaria na cidade em julho de 1942.

O blog teve acesso ao trecho do livro “Uma Viagem pela História Militar do Rio Grande do Norte”, de autoria do coronel Cordeiro, o qual conta com um breve relato sobre a história do regimento.

Em 18 de julho de 1942, pelo Aviso Nº 1.903, o 1º Grupo do 3º Regimento de Artilharia Antiaérea (I/3º RAAAé) foi transferido da Guanabara para Natal/RN, depois de curta permanência no Recife/PE.

O Comandante da Unidade era o Tenente-Coronel Pery Constant Bevilacqua. Em Natal/RN, o Grupo ocupou um quartel do tipo emergência, projetado para instalação provisória. Um quartel rústico, de baixo preço, com vida máxima de 12 anos. As paredes eram de alvenaria, a cobertura de telhas e o piso de tijolos.

O I/3º RAAAé chegou à Natal/RN a bordo do Navio Caxambu, com 37 viaturas e um carro de passeio, e recebeu a missão de participar da defesa da importante Base Aérea de Parnamirim (Parnamirim Field), da Base de Hidroaviões de Natal e do litoral potiguar, sendo instalado na Praia da Limpa, próximo à Base Norte-americana.

Nesse período, o I/3º RAAAe estava dotado de oito canhões antiaéreos Krupp 88 mm AAé C/56 “Flak 18” novos, distribuídos em duas baterias de canhões. Esse material era oriundo da grande encomenda feita pelo Brasil à Empresa alemã Fried Krupp, mas que devido ao início do conflito mundial, apenas uma pequena parcela conseguiu chegar. Dos sessenta e oito canhões Krupp 88 mm AAé C/56 adquiridos, apenas vinte e oito foram entregues, tendo o I/3º RAAAé recebido oito.

Além disso, a organização militar era dotada de 01 (um) trator de Artilharia Modelo Meia Lagarta Krauss Maffei AG Sd.Kfz 7 de 7,5 Ton, recém adquirido da Alemanha, no mesmo processo de compra dos canhões. A Unidade possuía, ainda, uma Bateria de Projetores Sperry M941 60” BBT antiaéreos, que vasculhavam os céus de Natal/RN buscando aeronaves inimigas.

Uma Bateria de Canhões do I/3º RAAA ficou estacionada ao largo da Base Aérea de Natal, apoiada por uma Bateria de Projetores. A outra Bateria de Canhões foi deslocada para a região de Ponta de Santa Rita (Genipabu).

Notícia jornal A Ordem de 13 de janeiro de 1942 (Fonte: Arquivo Nacional)

Um importante acontecimento envolvendo o I/3º RAAAe foi registrado em 18 de dezembro de 1942, quando um submarino foi avistado na baía de Ponta Negra, a cerca de 2,5 quilômetros da costa, e disparos foram efetuados sem mais informações sobre o fato.

Em Natal, a sede do I/3º RAAAe ficou instalado ao lado da base de hidroaviões dos EUA – atual Rampa – onde hoje se encontra o 17º Grupamento de Artilharia e Campanha (17 GAC). As baterias foram distribuídas pelo litoral, na praia de Santa Rita, no morro de Mãe Luiza e Ponta Negra. Eventualmente, há registros de destacamentos acampados na praia de Pirangi e mais ao sul, quase na divisa com o estado da Paraíba.

Ironicamente, o maior inimigo eram os alemães e o armamento utilizado era justamente alemão, o famoso canhão antiaéreo Krupp 88 mm C/56 Modelo 18 foi um dos mais modernos armamentos adquiridos pelo Exército Brasileiro às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Sua compra fez parte do chamado “Grande Contrato Krupp”, firmado em 25 de março de 1938, quando o Governo brasileiro buscava modernizar suas Forças Armadas diante do cenário internacional cada vez mais instável. Produzido pela indústria Fried Krupp AG, o armamento era considerado referência mundial pela elevada precisão, alcance e rapidez de tiro.

Veículo alemão meia largada usado para rebocar os canhões (Foto: Acervo do autor)

Entretanto, a guerra dificultou a entrega da encomenda. O bloqueio naval britânico e, posteriormente, a entrada do Brasil no conflito impediram que todo o material chegasse ao país. Das 1.180 peças previstas no contrato, apenas 28 canhões antiaéreos de 88 mm foram efetivamente entregues, sendo oito desses canhões equiparam o 3º RAAAe. Mesmo após o recebimento de armamentos norte-americanos por meio do programa Lend-Lease, os Krupp 88 mm permaneceram em serviço no Exército Brasileiro até meados da década de 1950, sendo retirados apenas pela escassez de munição, já que continuavam sendo considerados excelentes peças de artilharia.

Embora jamais tenham enfrentado um ataque aéreo alemão, os homens do 3º RAAAe permaneceram em prontidão durante toda a guerra. Sua presença simbolizava a determinação do Brasil em proteger aquele que havia se tornado um dos pontos estratégicos mais importantes dos Aliados no Atlântico Sul.