Natal/RN, 12 de julho de 1951, 11h30 da manhã de uma quinta-feira, quando o Comando da Base Aérea de Natal envia ao gabinete do governador em exercício Sylvio Pedroza um telegrama urgente que havia sido remetido pela Base Aérea de Aracaju comunicando sobre um acidente aéreo envolvendo um Douglas DC-3 prefixo PP-LPG da empresa Linhas Aéreas Paulistana (LAP), e que tinha entre os seus 33 passageiros o então governador do RN, Jerônimo Dix-sept Rosado Maia.
“Informo que o avião PP-LPG após sobrevoar as 8h e 30min este campo caiu no rio do sal em sobrado distante do aeroporto três quilômetros tendo perecido todos os tripulantes e passageiros ignorando-se os números vistos que os mortos se encontram presos aos destroços. Avião completamente danificado. – (a) Comte. Miranda.”
Minutos após o recebimento desse telegrama, o vice-governador Sylvio Pedroza recebeu outro telegrama do Governo de Sergipe comunicando do acidente e questionando se o governador DixSept Rosado realmente estava no avião. No momento em que Pedroza recebia os telegramas, na cidade de Natal já podia ser confirmada a notícia captada por radioamadores desde as primeiras horas da manhã.
O avião seguia para o Rio de Janeiro, havia desaparecido durante a aproximação para Aracaju, onde caiu próximo da localidade do Rio do Sal, um desmembramento do Rio Sergipe.
Passados 75 anos, o desastre permanece como um dos acidentes aéreos mais marcantes da aviação civil brasileira do início da década de 1950, tanto pelas circunstâncias da tragédia quanto pelas profundas consequências políticas e administrativas para o estado.
Uma viagem oficial interrompida
Dix-Sept Rosado seguia para o Rio de Janeiro em missão oficial, junto de três auxiliares; o secretário de Municipalidades, José Borges de Oliveira, do diretor do Departamento de Agricultura, Felipe Cortês Pegado, e do diretor do Departamento de Imprensa, José Gonçalves. Entre os compromissos estava a negociação de recursos junto ao Governo Federal e ao Banco do Brasil para obras de saneamento em Natal e ações voltadas ao enfrentamento da seca que atingia o Rio Grande do Norte.

O Acidente
Naquela madrugada, o Douglas DC-3 decolou do Aeroporto de Parnamirim, às 4h15, com 33 pessoas a bordo – sendo 11 potiguares – para cumprir a tradicional rota entre Natal e a então Capital Federal, realizando escalas em Recife, Maceió e Aracaju. A tripulação era composta pelo piloto Aureo Miranda, o copiloto José de Souza Neto, o radiotelegrafista Eurico Batista e o comissário Sérvulo Gonçalves.
Na chegada a Aracaju, as condições meteorológicas eram extremamente desfavoráveis devido a uma tempestade. Chuva intensa e baixa visibilidade obrigaram a tripulação a realizar uma aproximação por instrumentos, procediemnto já existente e comum na época, mas limitada quando submetida a fortes tempestades.
Por volta das 9 horas, durante a aproximação final, uma das asas da aeronave atingiu uma área de mata às margens do rio, aproximadamente três quilômetros antes da pista de pouso.
O impacto provocou a queda e a completa destruição da aeronave. Nenhum dos 33 ocupantes sobreviveu. As equipes de resgate só conseguiram alcançar o local cerca de onze horas depois, devido às fortes chuvas e às dificuldades de acesso à região. Além dos efeitos na política do RN, esse acidente praticamente decretou a falência da LAP, pois em sete anos de atuação já havia perdido cinco aeronaves, permanecendo apenas com duas em condição de voo após julho de 1951.
Dix-Sept Rosado
A tragédia interrompeu precocemente a carreira política de um dos mais promissores líderes do Rio Grande do Norte. O governador Jerônimo Dix-Sept Rosado Maia era um dos 21 filhos do casal Jerônimo Rosado e Isaura Rosado Maia. A família Rosado era conhecida por um curioso costume. Os 21 filhos receberam nomes inspirados na numeração francesa. Foi daí que surgiu “Dix-Sept”, correspondente ao número 17.

Dix-Sept Rosado foi eleito prefeito de Mossoró – o maior município da região Oeste potiguar – em março de 1948. Deixou o cargo sem concluir o mandato após ter sido eleito governador do RN em 1950, tomando posse em janeiro de 1951, portanto ficou como chefe do Executivo por seis meses. Ele fazia parte de uma das correntes políticas mais influentes do estado que tinha como líder o então vice-presidente da República, Café Filho.
Lista com o nome dos Rosados:
- Jerônimo Rosado Filho
- Laurentino Rosado Maia
- Tércio Rosado Maia
- Izaura Rosado
- Laurentino Rosado Maia
- Isaura Sexta Rosado de Sá
- Jerônima Sétima Rosado Fernandes
- Maria Oitava Rosado Cantídio
- Isauro Nono Rosado Maia
- Vicência Décima Rosado Maia
- Laurentina Onzième Rosado Fernandes
- Laurentino Duodécimo Rosado Maia
- Isaura Trezième Rosado Maia
- Isaura Quatorzième Rosado de Magalhães
- Jerônimo Quinzième Rosado Maia
- Isaura Seize Rosado Coelho
- Jerônimo Dix-sept Rosado Maia
- Jerônimo Dix-huit Rosado Maia
- Jerônimo Dix-neuf Rosado Maia
- Jerônimo Vingt Rosado Maia
- Jerônimo Vingt-un Rosado Maia.
Ele foi sepultado com honras de chefe de Estado, no cemitério do Alecrim e anos depois seus restos mortais foram trasladados para a cidade de Mossoró, onde permanece no cemitério São Sebastião. Treze dias após a tragédia, o então distrito de Sebastianópolis, em Mossoró, recebeu o nome do Governador Dix-Sept Rosado, que após emancipado manteve essa nomenclatura. Seu nome também pode ser visto no aeroporto de Mossoró e em Natal, existe um bairro em sua homenagem.

Setenta e cinco anos depois, a queda do PP-LPG continua sendo lembrada não apenas como uma das maiores tragédias da aviação comercial brasileira do pós-guerra, mas também como um episódio que alterou profundamente a história política do Rio Grande do Norte. Naquela manhã chuvosa de julho de 1951, um único voo interrompeu um governo, enlutou um estado e entrou definitivamente para a memória da aviação nacional.
