Israel venceu o Irã: Quanto de verdade?

Por Leonardo Dantas

No dia 12 de junho de 2025, Israel pegou o mundo de surpresa ao realizar um dos maiores ataques aéreos da era moderna contra o Irã, atingindo instalações militares, usinas nucleares, áreas industriais e, praticamente, eliminando a defesa antiaérea inimiga. Pelo o que foi amplamente divulgado, foram utilizados uma centena de aeronaves, desde caça, guerra eletrônica e reabastecedores, juntamente com um grande serviço de coleta de informação sensível por meio de espionagem, traição, infiltrações e inteligência.

Esse plano não foi pensado do dia para a noite, muito menos sua execução se resumiu ao dia 12 de junho. E será que esse ataque que durou cerca de doze dias garantiu a vitória de Israel sobre o Irã? Bem, a resposta depende do ponto de vista. Há quem diga que Israel causou um grande impacto, mas não chegou ao seu objetivo maior que era a morte ou deposição do regime do aiatolá e líder supremo do Irã, Ali Khamenei.

Já do ponto de vista de quem queria aniquilar o programa nuclear, Israel foi totalmente eficiente e eficaz. Voltando um pouco no tempo, há a hipótese de que tudo isso teve início nos anos 2010, quando o Instituto de Inteligência e Operações Especiais, o Mossad, teve acesso a anotações e um HD de um cientista com informações sobre o programa nuclear iraniano, que sempre se manifestou como sendo para fins pacíficos e geração de energia, mas os documentos apreendidos mostrava o contrário. Aliado a isso, inspeções recentes de 2024 e 2025, realizadas pela Agência Internacional Atômica ampliaram ainda mais essa suspeita e equipamentos eletrônicos detectaram partículas de urânio enriquecido a mais de 80%, contudo, nenhuma grande amostra foi localizada. Esse material radioativo poderia ser colocado em um artefato bélico.

Muitas pessoas perguntam o motivo do Irã não poder ter a bomba atômica, se o Paquistão, a Índia e, possivelmente, Israel mesmo tenha. A grande questão é que esses países não ameaçam a todo momento lançar a bomba contra os inimigos, declarando oficialmente, que defendem a aniquilação de Israel e dos EUA, como o Irã sempre fez por anos. Isso pode parecer hipocrisia, mas é assim que funciona a balança do mundo, onde as grandes potências agem como contrapeso.

Com as informações, as Forças Armadas de Israel e a Agência de Inteligência monitoraram a  movimentação do inimigo e quando teve a dúvida se aquele país poderia possuir ou enriquecer o Urânio com meios próprios, os israelenses decidiram agir. A autorização foi dada com pelo menos três objetivos principais, sendo eles: tirar os cientistas de circulação, eliminar o alto comando militar do Irã e destruir as plantas industriais.

A operação não contou com uma grande movimentação de tropas e foi descrita como uma medida de “inteligência em tempo real”. De posse de informações vitais, os agentes em solo cuidaram por eliminar de forma “seletiva” os alvos – os cientistas e militares – sem quase deixar danos colaterais, a exemplo dos ataques cirúrgicos em complexos residenciais onde moravam líderes da Guarda Revolucionária do Irã. Quase que ao mesmo tempo, seis bases nos arredores de Teerã foram bombardeadas. Esse fato foi um capítulo à parte desse conflito, com a utilização de centenas de aeronaves das mais variadas, desde aviões reabastecedores, guerra eletrônica e os caças de combate: F-35, F-15 e F-16. Israel não conta em seu arsenal com o bombardeio B-2 “Spirit” que ficou famoso dias após, por causa do lançamento das bombas de 14 toneladas, GBU-57, também em instalações nucleares iranianas.

Um fato pouco associado ao conflito recente foi o fato de Israel ter atacado, entre abril e maio deste ano, acampamentos e instalações do Hamas na Faixa de Gaza e ter realizado ofensivas pontuais contra grupos terroristas no Iêmen, como os Houthis. Isso impossibilitou que Israel fosse atacado por dentro, desviando o foco em uma possível contraofensiva iraniana.

Voltando ao 12 de junho, o ataque aéreo foi uma das maiores missões aéreas dos tempos modernos. Esses aviões decolaram de Israel e, provavelmente, com auxílio do KC-707 ou de KC-130H percorreram mais de 1.000 km – distância equivalente entre Londres e Berlim – com os F-15 e F-16 garantindo a superioridade aérea enquanto os F-35 adentraram no território iraniano seguros pela tecnologia que lhe garante a invisibilidade ao radar para lançar as bombas de forma precisa. Além dos alvos primários, essas aeronaves também destruíram parte da defesa antiaérea, como radares de alerta e lançadores de foguetes, em solo. O pilotos israelenses também contaram com apoio de meios guerra eletrônica, os quais embaralham o sinal radar os inimigos e lançam desinformação quanto a real posição das aeronaves aliadas.

KC-707 em missão com F-15 e F-35 israelense

Com isso, o Irã ficou incapaz de acionar sua defesa, apesar de ter centenas de foguetes e mísseis, entre eles os antigos Scud e os mais modernos sistemas como o S-200 e Bavar, ambos ficaram inutilizados em solo com suas plataformas de lançamentos destruídas. Enquanto isso, uma suspeita se tornou um fato quanto a real capacidade de reação da força aérea iraniana, que durante anos alardeou que era operante e capaz de reagir a ameaças externas mesmo com aeronaves com 40 anos de fabricação, em média. Os Mig-29 adquiridos nos anos 1980 e o F-14 “Tomcat” de 1970, oficialmente, não chegaram a entrar em combate, apesar de pilotos israelenses terem declarado que viram no radar os inimigos decolarem e em determinado momento mudarem de rota, evitando confrontos ou o tradicional combate “dogfight”.

Durante anos, foi divulgado que o Irã havia desenvolvido tecnologia própria para construir peças e armamentos para seus próprios aviões tidos como modernizados, em especial os de fabricação americana, pois além do F-14, eles possuem F-4 “Phantom” e F-5 “Tiger”. Uma questão importante é que não se trata apenas de voar – se é que estavam voando – mas combater, tendo em vista a aviônica moderna de última geração de Israel, com equipamentos que escondem a assinatura radar e ampliam a capacidade de identificação do inimigo a centenas de quilômetros com disparos de mísseis a dezenas de quilômetros.

Mig-29 e F-14 do Irã

Por 48 horas, os bombardeios continuaram e apenas imagens de alguns F-14 em solo foram divulgados, o que pode confirmar que os pilotos iranianos “fugiram” do confronto para preservar os aviões. Mesmo assim, com toda essa superioridade aérea, foi necessário a entrada dos Estados Unidos, com seu arsenal antibunker para por um fim, após doze dias, ao conflito mais intenso e proposta de cessar fogo. Então, fica o questionamento, após todo o esforço – financeiro e militar – quanto na realidade Israel saiu vitorioso do conflito. Cada lado vai contar sua versão da história, ainda mais para seus públicos interno. De fato, o Irã ficou sem seus cientistas e seu alto comando militar, e com parte de sua indústria nuclear bem debilitada. E algumas perguntas ficaram sem resposta, como o que aconteceu com o uranio produzido e qual será o futuro geopolítico do Oriente Médio.

Esse fato, assim como o 11 de setembro e a queda do muro de Berlim, deixará marcas na sociedade atual e repercussões para as gerações futuras. Quem viu se tornou uma testemunha ocular da história e, provavelmente, com o passar o tempo poderá ler nos livros de história o como aconteceu e o desenrolar.