O surgimento do Brasil, o Rio Grande do Norte e os Templários!

Em determinado momento da vida escolar quase todos os jovens no Brasil aprendem que em 22 de abril de 1500, o navegador português Pedro Álvares Cabral desembarcou no litoral de Porto Seguro, na Bahia, com sua expedição composta por pelo menos uma dezena de navios. Esse fato é cercado de diversas polêmicas, desde o termo utilizado por séculos como “descobrimento do Brasil” e até mesmo o local exato desse desembarque, pois há estudos sérios que colocam em dúvida e apontam o litoral do Rio Grande do Norte como o mais provável.

Enquanto há questionamentos se foi no litoral potiguar onde ocorreu o “descobrimento”, existe um consenso entre os pesquisadores e historiadores de que foi no RN onde o Brasil nasceu.

E qual a diferença?

Uma coisa é a ocupação física e temporal descrita nas cartas de Pero Vaz de Caminha. E outra, diz respeito ao nascimento do Brasil do ponto de vista jurídico para a Coroa Portuguesa perante os demais países da Europa, ou o que se entendia por Mundo à época. O famoso e polêmico Tratado de Tordesilhas que dividiria o Novo Mundo, havia sido assinado por Portugal e Espanha em 1494, ou seja, antecipando em seis anos a divisão de uma terra “desconhecida” até 1500, apesar de Cristóvão Colombo ter chegado às Américas, em 1492, mas se mantendo na região caribenha e sem descer à América do Sul.

Sem dúvidas, a carta de Pero Vaz de Caminha foi fundamental para a história e registro do fato, sendo uma referência até os dias atuais quando pensamos no primeiro contato do homem branco e os povos indígenas que ocupavam boa parte do litoral brasileiro, uma terra rica e frutífera do ponto de vista econômico para a Coroa e os investidores que acreditaram em Cabral, mesmo que o objetivo até então fosse abrir novas rotas comerciais rumo às Índias.

Esquadra de Cabral descrita na ilustração com símbolos da Ordem de Cristo nas velas dos navios

Ao tomar conhecimento dessa informação, o rei de Portugal e Algarves, Dom Manoel I (1495 – 1521) ordena uma nova expedição comandada por Gonçalo Coelho e que tinha entre seus tripulantes o famoso navegador Américo Vespúcio e Gaspar Lemos, e que tinha por objetivo fincar um símbolo da presença e conquista em nome da Coroa. Essa nova expedição – ao contrário de Cabral – chega primeiro onde hoje conhecemos como praia do Marco, em Touros/RN,  distante 100 quilômetros de Natal, onde foi deixado um marco.

Tratava-se de um monumento em pedra talhado com os símbolos do reino de Dom Manoel I e da Ordem de Cristo, medindo 1,20 metros de altura e cerca de 30 centímetro de face, em um formato retangular e esculpido em pedra lioz, um tipo de calcário muito comum em Portugal. A tradição e a pesquisa histórica indicam que a demarcação ocorreu entre 7 e 8 de agosto de 1501, por isso, oficialmente é celebrado em 7 de agosto o “Aniversário do RN” pelo calendário estadual e regulamentado pela lei 7.831/2000, sancionada  então governador Garibaldi Alves Filho.

O que significa o Marco de Touros?

O marco de Touros significa que o reino de Portugal requisitava para si a terra, conforme previa o Tratado de Tordesilhas, ou seja, a faixa continental do Brasil tinha um dono perante as leis vigentes da época e do Velho Mundo. Com isso, espanhóis, franceses e holandeses não poderiam requisitar essa propriedade. A expedição de 1501 serviu para demarcar boa parte do litoral brasileiro, passando ainda pelo Rio São Francisco, Baía de Todos os Santos, Rio de Janeiro e Angra dos Reis, em 1502.

Apesar de parecer simples, o marco de Touros possui um forte simbolismo, com o brasão do rei Dom Manuel, o Venturoso, abaixo da cruz da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou simplesmente Ordem de Cristo. Há um consenso entre pesquisadores, que esta ordem seria uma reminiscência da Ordem dos Cavaleiros Templários. E para falar sobre essa relação entre os temas desse post, precisamos voltar um pouco no tempo, mais precisamente 200 anos antes do marco.

Réplica do Marco de Touros, com direito aos símbolos da Ordem de Cristo e brasão de Armas de Dom Manuel I (Foto: Canindé Soares)

Em 1312 D.C., o papa Clemente V determina a extinção da Ordem dos Cavaleiros Templários, oficialmente conhecida como Ordem dos Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão e durante dois anos houve uma grande perseguição contra os membros da ordem, com muitos deles fugindo para Portugal. Os Templários surgem a partir de 1118 D.C com a missão original de proteger os peregrinos da Terra Santa e o Templo de Jerusalém, mas conquistam muito poder e dinheiro realizando transações financeiras, implementando sistema bancário arcaico, onde o nobre depositava o dinheiro em sua cidade de origem e sacava no destino, como uma espécie de nota promissória. Isso garantia uma viagem segura, sem riscos de assaltos ou a vida.

Os Templários ganharam ao mesmo tempo poder e autonomia financeira, pois teoricamente não respondiam a nenhum reino – apesar de fazerem voto de obediência ao papado – e tinham recursos de sobra, sem falar que quando adquiriam alguma terra ou castelo, não eram taxados com impostos, pois era da Igreja. Isso atraiu atenção de inimigos poderosos, entre eles o rei Filipe IV da França, que adquiriu uma dívida com a Ordem. Ao invés de pagar, convenceu o papa Clemente V a condenar os Templários por blasfêmia e heresia, em 1312, o que significava perseguição e morte, com último grão mestre da ordem, Jacques DeMolay morto queimado na fogueira.

Diversos templários encontraram refúgio no reino de Portugal, sob a coroa de Dom Dinis, que em 1319 pede o reconhecimento da Ordem de Cristo ao papa João XXII, com objetivo de absorver recursos da extinta Ordem Templária, entre terras, castelos, metais preciosos, entre outros bens. E foi justamente com esses recursos, que 200 anos depois, em 1500 e 1501, que o rei Dom Manuel I financiou as primeiras viagens transatlânticas, resultando no nascimento legal do Brasil, no Rio Grande do Norte. No fim das contas, o marco de Touros possui a marca da Ordem de Cristo e representa todo um poder do império da época, pois um fato interessante é que, com a fortuna acumulada da ordem remanescente dos templários, Portugal foi o primeiro império ultramarino competindo de igual por quase três séculos com a Espanha.

Ao pesquisar esse tema, descobrimos como esses símbolos estão presentes na história do nosso país, inclusive nos dias atuais. A cruz de malta está presente na nau de Cabral, na bandeira do Brasil Império e até em escudos de times de futebol – e não estamos falando do Vasco da Gama – como a própria Seleção Brasileira.

Atualmente, o marco está preservado sob os cuidados do Museu Câmara Cascudo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), com duas réplicas na cidade Natal, uma no Instituto Histórico e Geográfico do RN e outra na Fortaleza dos Reis Magos. Ele é a representação física e histórica de uma era e o motivo do porquê devemos celebrar o RN.

Nota do blog: Enfim, vale explicar que esse artigo não tem a ver com aviação. Vamos tentar contar a história do nascimento do Brasil sobre uma perspectiva pouco falada ou abordada. Apesar de ser um aluno curioso no ensino fundamental e médio, me deparei com essa informação já na fase adulta, ao ler o livro “O Brasil nasceu juridicamente no RN”, dos autores Marcos César Cavalnti e Enélio Petrovich, que estava jogado sobre a mesa de centro de uma redação de jornal, em 2012. Deste então me pergunto, “por que não vimos isso com profundidade na escola?”

Referências:

BRANDAO, Renato Pereira. Guerreiros de Cristo na Terra de Santa Cruz: os Cavaleiros Templários e a expansão ultramarina Ibérica. Editora Dialética. 2021

MORAIS, M. C; PETROVICH, E.L.. O Brasil nasceu juridicamente no RN. Natal/RN. EditoraFoco. 2007