Dornier: O maior avião do mundo sobre Natal em 1931

A década de 1930 colocou a cidade de Natal como um dos principais palcos e protagonistas da aviação mundial, desde americanos, alemães, franceses, portugueses, espanhóis e tantos outros que sonhavam com o reconhecimento, seja pelo voo mais longo, sem escalas, mais veloz, a noide ou dia, entre outros.

A cidade já tinha recebido o seu primeiro voo e em pouco tempo, as principais empresas de correio aéreo já estavam instaladas com hidrobases no Rio Potengi, ou no campo de pouso de terra, em Parnamirim Field. E como quase todas as novidades no ramo da aviação que envolvesse o hemisfério Sul tinham que passar por Natal, a passagem do maior avião do mundo não poderia ser diferente.

Do-X atracado nas margens do Rio Potengi em 1931 (Acervo do autor)

Em 5 de junho de 1931, pousava na capital potiguar o Dornier Do-X (Do-X), um “monstro” voador, com 40 metros (m) de comprimento, 48 m de envergadura, 10 m de altura, propulsionado por 12 motores de 610 hp (cavalo de força), cada, capaz de levantar voo mesmo pesando 56 toneladas (56.000 kg). Mas antes de detalhar esse feito, vamos falar sobre esse projeto que era uma obra de arte do ponto de vista da engenharia, um símbolo para os alemães, e que concorria até mesmo com outra bela máquina germânica, o Graf Zeppelin.

O projeto inicial do avião foi feito na Suiça, em 1929, pois a Alemanha ainda estava sob as sanções do Tratado de Versalho, pós-primeira guerra Mundial. A ideia era fazer um aeroplano que transportasse 60 passageiros, mas logo chegou a 100, além de 17 tripulantes. Quando olhamos para esse avião percebemos que mais parece um navio, principalmente por se tratar de um hidroavião e os estudos à época eram limitados sobre o empuxo e efeitos do ar e água sobre a aerodinâmica. Nesse mesmo ano, em um voo de teste, o Do-X bateu o recorde em números de passageiros, voando por 40 minutos com 169 pessoas a bordo e adquirindo o mito de que precisava que as pessoas tinham que fazer contrapeso, para esquerda e direita, para facilitar as curvas.

A aeronave em si pesava 40 toneladas e capacidade de mais 20 toneladas em carga útil, o que passou para 16 toneladas no voo de 1930. Outra diferença em relação ao voo teste eram os motores, que inicialmente seriam de 540 hp gerando 6.500 hp no total, mas decidiram mudar para 7.200 hp, pois identificaram que o equipamento tinha dificuldade de ganhar altitude e apresentação um baixo desempenho em relação a autonomia, entre 1.700 e 2.000 km, a uma velocidade de cruzeiro em média de 200 km/h.

Os 12 motores eram um verdadeiro desafio de engenharia para operar o Do-X

Ao final do projeto, identificaram que o Do-X necessitaria de 17 pessoas na tripulação, sendo 02 pilotos, 01 radiotelegrafista, 01 navegador e 05 auxiliares, mais 8 de apoio nas cabines e mecânica. Nessa época, assim como no Zeppelin, o conceito de viagens transatlânticas era inspirados nos grandes navios, por isso, contava com cabines amplas e espaços de convivência, como bares e restaurantes.

Em 25 de outubro de 1930, o engenheiro e inventor do Do-X, Claude Dornier divulgou a intenção de fazer uma viagem transatlântica partindo da Alemanha até o Senegal (Francês), e que poderia seguir para a América pousando em Natal e depois Miami. Esse plano mudou, e passou contar com escalas em Portugal, Cabo Verde, Fernando de Noronha, Natal ou Recife, antes de seguir para o Rio de Janeiro. O assunto esfriou na imprensa e quando questionado em um porta-voz da Lufthansa admitiu a impossibilidade do plano, apesar dos testes bem sucedidos. Em novembro, Dornier deu outra declaração, afirmando que o propósito do Do-X não era quebrar recordes, mas mostrar sua eficiência e segurança para os voos comerciais.

Em 5 de novembro de 1930, o avião decola de Friedrichshafen, Alemanha, com destino a Portugal para iniciar uma jornada histórica, que foi interrompida repentinamente após um incêndio em um dos motores da asa esquerda, danificando o avião gravemente. Isso obrigou uma pausa de seis meses para manutenção.

Voo sobre o Atlântico era o coroamento do projeto

A grande travessia (1931)

Em 9 de janeiro de 1931, um telégrafo da Western Telegraph pega todos de surpresa, ao comunicar que a Lufthansa tentar um raid e que poderia passar por Natal logo após o dia 20. Na prática era impossível devido os danos causados pelo incêndio, mas essa informação foi ignorada ou propositalmente omitida, pois havia muitos questionamentos sobre a viabilidade daquele projeto. A empresa Dornier assume o desafio de fazer um voo tricontinental, o mesmo já realizado pelo Graf Zeppelin em 1930.

Desafio tricontinental

Em 24 de janeiro o diretor do Sindicato Condor no Brasil, Paul Moosmayer chega a Natal confirmando a capital potiguar como a primeira do Brasil a ser visitada pelo Do-X, com apoio da firma Gurgel Lubake & Cia. A previsão para o pouso seria 8 de fevereiro.

No dia 5, era esperado no Porto de Natal o vapor “Eisnack” que trazia peças de reparo para o avião. Um ponto de atenção, a necessidade de nova manutenção após semanas de reparo em Portugal. Foi divulgado na imprensa local que Natal era um ponto de passagem imprescindível, pois apesar de Recife ter mais estrutura, havia dúvidas se o grande aparelho conseguiria pousar e decolar do rio Capibaribe, em Recife.

Estavam a bordo o almirante Gago Coutinho, a jornalista inglesa Lady Drummond e representantes da Fábrica Dornier. Gago Coutinho era um considerado um herói da aviação portuguesa, um pioneiro, e em determinado momento fez críticas ao uso dos Zeppelins defendendo os aviões de asas fixas como meio de transporte. Tal situação foi logo contornada.

Enquanto isso, Natal e sua população se preparava para o grande evento. A Lufthansa, via Sindicato Condor, orientou a instalação de uma boia de 700 kg no rio Potengi, na localidade conhecida por “Volta do Periquito”, com uma corrente de 33 metros de comprimento fabricada no Porto de Natal, para auxiliar na atracação. Com a confirmação de que a capital potiguar receberia o Do-X, foi enviado um convite para o cônsul alemão em Pernanbuco, Carlos Von Den Stelmen, para estar presente no dia do pouso.

Em Portugal, já não bastava os desafios mecânicos, o mau tempo adiou ainda mais a grande travessia sobre o Atlântico. Apenas em maio de 1931, o Do-X se encontrava em condição de voo, inspecionado, abastecido e carregado, totalizando 52 toneladas, atracado em Porto Praia, Cabo Verde.

Chega junho, e no dia 4, às 9h52 (horário de Cabo Verde) decola o Dornier X com mar calmo, clima bom e após duas tentativas, passando sobre o vapor francês Marsilla, às 14h30. Após 13 horas e 18 minutos de voo e quase 2.200 km percorridos, o avião passa sobre Fernando de Noronha onde pousou na baía de Santo Antônio, com duas horas de atraso e precisou de auxílio do radiogoniômetro – equipamento moderno à época que utilizava ondas de rádio e torres posicionadas para triangulação, funcionando como um antecessor do GPS, em que uma antena no avião apontava para onde se queria chegar.

O avião transportava tantos passageiros que isso influenciava na estabilidade do voo

5 de junho de 1931, o dia em que Natal parou para conhecer o Do-X. Ao meio dia, em ponto, o avião estava pronto para decolar, o que aconteceu 46 minutos depois, com previsão de 1 hora e 40 minutos de voo entre Fernando de Noronha e o continente. Na cidade a expectativa era alta, com autoridades esperando no local indicado, agenda de visita para convidados e imprensa. Quem prestou apoio foi a Compagnie Generale Aeropostale, futura Air France, que emprestou a lancha de sua hidrobase.

Uma cena que chamou a atenção das testemunhas foi o empenho que o Syndicato Condor teve em divulgar o feito da máquina alemã. Na sede da empresa, às margens do rio Potengi, foram hasteadas bandeiras do Brasil, da Alemanha e da fábrica Dornier. Cenas assim iriam se repetir no mesmo local a partir de 1933, contudo, as bandeiras eram outras e a ideia era propagar o nazismo, mas isso é tema para outro post.

Às 14h05, o som pacato que reinava em Natal foi substituído pelo roncar dos 12 motores de 610 hp do Do-X, quando os primeiros natalenses avistam o avião fazendo evoluções, ou melhor, discretas manobras devido ao grande tamanho e baixa manobrabilidade no navio voador. Quinze minutos depois, o gigante Dornier aqualizava sobre o rio Potengi.

No dia 6 de junho, o presidente Getúlio Vargas envia um telegrama de congratulação ao comandante, o tenente capitão Frederick Christiansen pelo grande feito ao chegar no Brasil. No mesmo dia, a tripulação se reúne para conceder uma coletiva de imprensa na agência do Syndicato Condor, localizada na rua Frei Miguelinho, 119. Atualmente, o prédio está totalmente desconfigurado.

Do-X em Natal, no ano 1931

A estadia em Natal se estende até o dia 18 de junho, quando às 05h30 (horário local) o avião decola do Rio Potengi, passa sobre a cidade e ruma em direção ao sul, chegando a Salvador, às 13h25. Na despedida, embarcaram o almirante Gago Coutinho, o chefe da fábrica Dornier, Sr. Mauricio Dornier, o representante da Força Aérea Italiana, Brenta, e o vice-consul da Alemanha no RN, o senhor Ernst Luck.

Um projeto fracassado

Apesar do esforço dos alemães envolvidos, sobretudo a fábrica Dornier, o modelo Do-X ficou fadado ao fracasso. Apesar do sucesso das primeiras viagens, o aparelho se mostrou muito caro para se manter e inviável economicamente, ao contrário do balão Zeppelin, que apesar de também alemão era um concorrente. Vale citar também os efeitos da crise de 1929 para qualquer setor industrial.

Durante a turnê de 1931, a Itália chegou a fazer a encomenda de uma unidade do X, revelando inclusive o nome do futuro comandante, o piloto Giacomo Brenta. O que nunca aconteceu. Ao todo, 3 modelos foram construídos com os dois últimos praticamente desmontados até 1932. O primeiro deles foi passado para a Lufthansa em 1933, após dificuldade financeiras da Dornier. Em 1936, foi enviado a um museu em Berlin, onde foi destruído no ano de 1943 após bombardeio da Força Aérea Britânica.