O hangar francês da segunda guerra que não era francês e nem da guerra

Natal é uma cidade com uma história riquíssima e quando o assunto é aviação, essa riqueza é ainda maior, ao ponto de ser palpável e sentida de perto. A Base Aérea de Natal (BANT) é um ótimo exemplo, com seu ápice na segunda guerra mundial e um nascimento que podemos rastrear ainda na década de 1920, quando a aviação comercial estava engatinhando.

O local possui relatos e estruturas físicas únicas, visíveis até os dias atuais, como os prédios da época da guerra e de períodos anteriores. E o tema deste artigo é o melhor exemplo disso, na visão deste redator. Trata-se de uma construção peculiar pela história, uso, ocupação e arquitetura com destaque para sua forma triangular. Por anos e até mesmo dentro da Força Aérea Brasileira (FAB) se repetiu a informação de que seria o “hangar francês do tempo da guerra”.

Contudo, como iremos mostrar, essa afirmação possui duas incoerências, o hangar não era francês e muito menos foi feito para a guerra.

O erro é comum principalmente quando se associa a estrutura e a BANT, pois o local está diretamente ligada à Segunda Guerra Mundial e também possuiu um campo de aviação francês ligado as empresas Aeropostale e Air France. O que muitos não sabem é que além dos franceses, quase que no mesmo local também operou uma empresa italiana, a Linee Aeree Transcontinentali Italiane (LATI S.A.).

Entre os anos de 1939 e 1941, a empresa LATI operou no Brasil e boa parte deste tempo tinha uma base em Natal, principalmente para realizar os voos sobre o Atlântico, em direção a Roma. Neste mesmo período, eles dividiram quase que o mesmo espaço com os franceses, que estavam em Parnamirim desde 1927, e até mesmo os americanos, a contar de 1941. É verdade que no ano de 1940, com a entrada da Itália na Segunda Guerra Mundial, eles literalmente conviviam com o inimigo, a poucos metros e essa proximidade gerou inúmeras confusões de datas e fatos.

Em vermelho área dos franceses e em azul os italianos na BANT

Pois bem, o hangar e outro prédio da LATI ainda existem nos dias atuais, no setor oeste da Base Aérea de Natal, o primeiro agora faz parte do Centro Integrado de Operações Aéreas (Ciopaer), da Secretaria de Estado da Segurança Pública do RN (Sesed), enquanto que o antigo hotel de trânsito dos italianos permanece com a FAB.

Durante anos, associou-se que aquele abrigo de aeronaves era remanescente da Air France e muitas pessoas ainda se referem a ele, como do “tempo da guerra”. Contudo, já ficou esclarecido que dos franceses resta algumas casas e galpões – o que merece um post futuro -, quando os dois hangares foram desmontados entre as décadas de 1950 e 1970.

A construção do hangar remonta ao início da década de 1940, com o auge dos voos entre o Brasil e a Ilha do Sal, na costa africana, que tinha Natal como ponto de partida com as malas postais e eventuais passageiros. Um dado curioso é que no caminho de volta, o avião pousava em Recife, capital de Pernambuco.

Em maio de 1940, a Itália entra na Segunda Guerra Mundial, o que dificultou um pouco a operacionalidade da empresa LATI, porém, ela se mantém ativa até o fim de 1941, quando os Estados Unidos entram no conflito. Como o principal fornecedor de combustível de aviões no Brasil, o fato prejudicou e muito as operações aéreas do país inimigo.

Avião da LATI no pátio da BANT sob ocupação americana (Foto: Acervo do autor)

A LATI então abandona o campo de pouso, deixando para trás cerca de três aviões e demais equipamentos usados em Natal. O hangar passa a ser ocupado, temporariamente, pelo Exército Brasileiro que por sua vez vigiava a movimentação americana no campo dos franceses, meses antes de se mudarem definitivamente para o outro lado, onde era construída Parnamirim Field.

Ocupação do área no início da guerra
Hangar com o nome LATI e um P-40 da FAB no primeiro plano (Foto: Acervo do autor)

Nas imagens de 1941 e 1942, é possível ver o hangar apenas com o nome LATI S.A. em sua estrutura. Nos anos seguintes, acredita-se que a partir de 1944, foi adicionado o nome do “Capitão Cézar”, uma homenagem da FAB ao então tenente Arthur Cezar de Andrade morto em acidente aéreo em 23 de julho de 1942, no litoral de Pernambuco, durante patrulha.

O nomes Cap Cézar na frente do hangar italiano em uso pela FAB

Em algum momento da história, resolveram retirar o nome do capitão Cézar e trocaram por Tenente França, para homenagear outro militar da FAB falecido em acidente aéreo e o que é considerado a primeira vítima brasileira da segunda guerra. Surge então a grande confusão, quando as pessoas associam o nome do militar França com a Air France, quando na verdade o local era dos italianos e um dia já foi Cézar.

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