Se você fosse um espião qual seria o melhor local para montar sua base de operações e observações? Talvez a melhor resposta fosse um local reservado e longe da atenção do grande público.
Contudo, durante a segunda guerra em Natal, os norte-americanos fizeram justamente o contrário e escolheram um prédio em um dos locais mais movimentados da cidade, a Praça Augusto Severo, na Ribeira, onde funcionava um dos principais bairros comerciais da cidade à época.
Estamos falando do escritório do Naval Observer, ou Observador Naval, que ocupava dois ou três pavimentos de um sobrado localizado na esquina da Rua Doutor Barata e a Travessa Aureliano, com frente voltada para a praça e Teatro Alberto Maranhão, então Teatro Carlos Gomes. No passado ainda mais antigo foi uma das grandes loja, a chamada Paris em Natal.


Esse post da categoria Onde Era merece um complemento. Pois a informação responde onde era o prédio da espionagem americana em Natal. Porém, não explica por que eles – na condição de aliados do Brasil – manteriam espiões agindo por aqui. Para essa dúvida, a resposta é justamente para espionar os próprios natalenses, tanto os nativos quanto os estrangeiros que residiam aqui.
Nesse contexto, vale explicar que a construção de bases militares aliadas atraiu a atenção dos países do Eixo, ainda em 1941 e, principalmente, após 1942 com a entrada dos EUA na guerra e o rompimento de relações por parte do Brasil. Com isso, quase que instantaneamente tornou italianos, japoneses e alemães inimigos em Natal, ou no mínimo suspeitos, o que provocou prisões e fugas.


A coleta de dados se tornou algo fundamental para os americanos em Natal e um dos responsáveis por isso era papel dos observadores navais (Naval Observers), um facilitador entre a U.S.Navy e a sociedade civil por meio de autoridades como governador (interventor) e prefeito. Dentro desse contexto, uma figura que ganhou destaque no cenário social natalense foi o comandante Douglas A. Cook, sendo citado em diversos documentos e notas nos jornais da época. Ele ficou no cargo entre 1942 e 1945, substituindo Liewellyn Wimans (1941-1942) e Charles Gary (1942).
Em 14 de abril de 1943, por exemplo, Cook representou os EUA, ao lado do cônsul Harold Sims, na comemoração do Dia Pan-Americano na Rádio Educadora de Natal (REN), em programa dedicado à celebração dos povos do continente americano. Em outro evento, este noticiado no Correio da Manhã (RJ), em 25 de novembro de 1943, ele recebeu em sua residência na Avenida Rio Branco, 237, o ator de filmes de Hollywood e famoso pelo gênero velho oeste, Joel Mc Crea.
Contudo, a função de Naval Observer era na verdade de um espião com autorização do Governo para atuar. Há relatos de que nesse prédio na Ribeira, havia inúmeras antenas de comunicação e um movimento incomum de militares à paisana, que conduziriam investigações contra pessoas suspeitas. Em 3 de novembro de 1942, no Expediente Municipal de 27 de outubro, o próprio Cook solicitou à Prefeitura, plantas atualizadas do Município de Natal, as quais foram autorizadas pelo despacho nº 3.822.
Pouco se sabe sobre o comandante Cook e o que teria acontecido com ele no pós-guerra. Contudo, uma passagem do livro “Natal, USA: II Guerra Mundial”, do autor Lenine Pinto, revela algumas considerações importantes, como disputas com o General Walsh (comandante do United States Army Forces in South America) e sua estreita relação com os representantes do FBI na cidade.
Então, foi no prédio da Travessa Aureliano, número 56, onde muitas informações foram trocadas e importantes decisões foram tomadas a partir da figura do Observador Naval.
Referências:
PINTO, Lenine. Natal, USA: II Guerra Mundial – A participação do Brasil no
Teatro de Operações do Atlântico Sul. Natal, Rio Grande do Norte, Brasil. 1995.
JUNIOR, Clyde Smith. Trampolim Para a Vitória. Volume 2. Editora Foco. 2003.
