Por Leonardo Dantas
A dimensão continental, a vastidão do Oceano Atlântico, a relação pacífica com os países vizinhos e a boa relação geopolítica com as grandes potências mundiais permitiram ao Brasil ao longo de sua história afirmar se tratar de um país seguro e sem inimigos declarados. Contudo, o atual cenário mundial mudou essa perspectiva e acendeu uma luz vermelha de alerta nas autoridades e estudiosos em geopolítica, sobretudo, após ações militares lideradas pelos Estados Unidos que até então não passavam da linha tênue da ameaça ou discursos vazios, mas se mostraram um risco real, a exemplo da captura do ditador venezuelano Nicolas Maduro, os ataques com bombas ao Irã os quais resultaram na morte do líder supremo Ali Khamanei, entre outros, e o interesse em conquistar a Groenlândia.
Todas essas ações, segundo especialistas, ocorrem por interesse em riquezas e recursos naturais, como o petróleo, gás natural e as terras raras, esta última uma novidade que vem sendo explorada por diversos setores industriais, entre eles telecomunicações, bélica e energias. Por coincidência, o Brasil possui reservas consideráveis desses recursos naturais e nas últimas décadas esteve em uma posição confortável de negociação, seja com chineses ou com os americanos. Entretanto, a atual realidade internacional pode mudar por completo esse sentimento e como deveremos reagir como nação?
Ao que parece, todo esse cenário tem despertado preocupação nas autoridades brasileiras. Declarações recentes são, no mínimo, preocupantes. O embaixador e assessor para assuntos internacionais da Presidência da República, Celso Amorim, chegou a declarar que “devemos nos preparar para o pior”, por ocasião do ataque dos EUA ao Irã, recentemente. Já fontes próximas ao presidente Luíz Inácio Lula da Silva (PT) dão conta que o líder do Executivo há um tempo vinha solicitando relatórios das Forças Armadas sobre as reais condições de defesa do Brasil. No dia 9 de março, Lula falou sobre a necessidade do Brasil se armar para não ser invadido, isso durante encontro com o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa., quando declarou “se a gente não se preparar na questão de defesa, qualquer dia alguém invade a gente”.
E por último, e talvez mais grave, foi a entrevista do ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB) entre 2021 e 2023, o Tenente-Brigadeiro da reserva Carlos de Almeida Baptista Júnior, concedida ao jornal O Estado de São Paulo. De acordo com ele, as forças armadas do Brasil passam por um processo que já dura – pelo menos – três décadas de deterioração e, por isso, não estariam preparadas para o conflito moderno, seja para se defender e muito menos para defender outros países.
Ele citou que existem problemas na cadeia de comando, a qual deveria estar sob um Estado Maior conjunto para a Marinha, Exército e Aeronáutica. Outro argumento do brigadeiro diz respeito a forma como o país destina recursos considerando um “orçamento engessado”.
Críticos do ex-comandante questionaram as falas, citando que ele não fez nada para mudar o cenário enquanto esteve à frente da FAB, dando exemplos como; valorização da tropa e a aquisição de novos aviões, pois o militar cita que a compra de quase 30 unidades do F-39 Gripen atenderia apenas metade da real necessidade. Contudo, vale ressaltar o quanto esse brigadeiro da reserva se tornou odiado por uma parte da sociedade, em especial dentro da ala bolsonarista, devido seu papel como testemunha chave do processo que ficou conhecido como 8 de janeiro ou tentativa de golpe contra o Estado.
A opinião do ex-comandante não pode ser desconsiderada, afinal de contas ele ocupou o mais alto cargo da FAB e é um ex-piloto militar treinado e com experiência na aviação de caça (F-5 e AT-26) e de transporte com o E-99, este último um vetor uma ferramenta fundamental num cenário moderno de combate.
E na prática ele está certo e para corroborar que essa conclusão precisamos analisar alguns aspectos no tocante a aviação. O desmonte das forças armadas obrigou a FAB a operar aeronaves com décadas de uso, a exemplo dos F-5, os quais foram adquiridos em lotes desde os anos 1970 até os anos 2000, com todas as células atuais modernizadas, em um procedimento em parceria com a Embraer que estendeu em muito a vida útil deles. Entretanto, essa sobrevida na prática serviu ou serve para qual propósito? Num cenário moderno e eventual conflito, dificilmente esses aviões entrariam em combate com modelos similares, tendo como base os nossos países vizinhos, que operam versões do F-16 “Fighting Falcon” ou Mirage 2000.
Quando falamos no F-39 “Gripen”, enfrentamos um problema de escassez, pois em março de 2026 apenas uma dezena desses aparelhos foram entregues à FAB, e basicamente estão atuando na defesa do espaço aéreo do Distrito Federal e quem sabe do eixo Sudeste. Ao chegar nessa questão tocamos em um ponto sensível e polêmico, ou seja, a FAB está apta a defender todo o território nacional ou apenas a parte industrializada do Brasil?
Nossa força aérea conseguiria defender o Nordeste brasileiro rechaçando em tempo hábil qualquer ameaça que conseguisse atravessar o Atlântico? A resposta provavelmente seria, não! O F-39 tem um alcance superior a 3.000 km e estamos a cerca de 2.000 km do Centro Oeste, contudo, isso acontece em condições perfeitas de voo inclusive com uso de tanques de combustível externo. Nessa configuração não seria possível entrar em combate, quando o raio efetivo seria de 800 a 900 km, ou seja, 1.600 a 1.800 km de voo ida e volta.
Portanto, nossa maior defesa seria justamente a distância de qualquer nação diante do oceano, a menos que fosse algum inimigo de posse de um porta-aviões, o qual seria detectado previamente dando tempo para uma pronta resposta.
Aposto que tenha algum leitor pensando e se questionando se os militares da Base Aérea de Natal (BANT) não poderiam nos defender? Apesar dessa organização militar ser a maior da FAB e contar com diversos esquadrões, são meios voltados mais para a instrução, portanto, conta com vetores para esse fim, a exemplo do caça A-29 “Super Tucano” e do helicóptero H-50 “Esquilo”. Mesmo assim, temos em Natal um A-29 de prontidão utilizado na defesa do espaço aéreo, mas com muitas limitações operacionais, pois é uma avião turbo hélice e com armamentos nada modernos.
E isso não tira a importância da BANT no cenário da soberania aérea, pois em algum momento os militares precisam ser treinados para estarem aptos e familiarizados com a doutrina do combate. E combater custa caro e os investimentos no Brasil nessa pasta não foram crescente, com uma das maiores crises ocorrida em 2025 com a notícia de afastamento de pilotos, redução de horas de voo, suspensão de projetos importantes e estudos para discutir mudanças no programa de treinamento dos pilotos, o qual contaria com aeronaves mais antigas e a retirada do A-29 da formação dos pilotos e até da Esquadrilha da Fumaça.
Podemos identificar esse impacto matematicamente, pois entre 2015 e 2025, os valores em reais destinados a capacidade operacional da FAB foram reduzidos a quase metade, passando de R$ 4,34 bilhões para R$ 2,06 bilhões. Isso representou uma redução de 45% das horas de voo entre 2015 e 2025, passando de 128 mil horas voo para cerca de 88 mil.
Quando verificamos a frota, essa realidade não é diferente. Em 2015, a FAB confirmava ter 359 aeronaves de todos os tipos, seja caça, helicóptero, transporte e treinadores, terminando 2025 com 40 aviões a menos em condição de uso. A falta de recursos para a manutenção preventiva prejudica a operacionalidade, isso sem falar no aumento do risco de acidentes.
Diante de todos os fatos relatados, esperamos que o Brasil não se envolva em qualquer conflito armado pois falta recursos financeiros e materiais para manter a paz ou responder a altura qualquer agressão. No atual cenário, questionamos inclusive a capacidade de participar de missões de paz como signatário das Nações Unidas (ONU), lembrando que nas guerras contemporâneas a FAB não participou de nenhum força expedicionária.
Essa discussão renderia um livro então um único artigo ficaria muito longo para abordar todas vertentes, por isso, resolvemos nos ater apenas aos itens acima. Optamos em não abordar questões ligada a motivação ou números da tropa, tendo em vista a sensação do crescente número de pilotos da FAB que pediram baixa nos últimos cinco anos.
Além disso, não entramos no mérito de que a vontade conta muito, como na compra de caças para uma solução com tempo determinado a exemplo do F-2000 “Mirage” adquirido nos anos 2000 como “tampão” enquanto o F-5 era modernizado. Soma-se a isso a outras questões estruturantes que envolve o controle do espaço aéreo – civil e militar – e missões humanitárias dentro do Brasil.
Ou seja, uma força aérea que prioriza o transporte de autoridades nunca estará preparada para se defender ou defender o povo de uma ameaça externa. Essa afirmação se justifica quando a mídia tradicional noticia com muito mais ênfase a informação de que ministros ou outros com direito estão voando em aviões comerciais por falta de combustível do que a diminuição da horas de voo na instrução dos pilotos.
