Soldado Luiz Gonzaga: herói ou “doidin”

O complexo de “vira-lata” foi uma expressão criada pelo escritor Nelson Rodrigues para representar o sentimento de inferioridade por parte dos brasileiros em relação a outras culturas, costumes, sobretudo se comparado a outros países. Esse complexo permeia os feitos de brasileiros, a exemplo de Augusto Severo, Santos Dumont, João Ribeiro de Barros e tantos outros que têm seus feitos minimizados ou até mesmo desacreditados.

O potiguar soldado Luiz Gonzaga é um bom exemplo. A pontado como símbolo de bravura por alguns e descrito como o “doidinho” por outros. Vale a pena resgatar essa discussão em torno do seu nome, que surge na história há exatos 90 anos em decorrência da Intentona Comunista de 1935, ocorrida em Natal/RN.

Oficialmente, o Estado do Rio Grande do Norte o considera um herói dentro das fileiras da Polícia Militar do Rio Grande do Norte (PMRN) pois deu a vida lutando contra os comunistas, em 24 de novembro de 1935, na defesa do então quartel geral da PM, na rua da Salgadeira, atual, Casa do Estudante. Para tanto, na administração do governador Tarcísio Maia instituiu, em 15 de agosto de 1977, a Medalha do Mérito Policial Luiz Gonzaga, por meio do Decreto Estadual nº 7.153. Tal honraria existe até os dias atuais e é destinada a membros da Polícia Militar ou das Forças Armadas e quaisquer cidadãos, que se distinguiram ou venham a distinguir-se por serviços prestados à Corporação Militar Estadual ou à Segurança Pública do Estado, no campo militar, científico, social ou econômico.

Extraoficialmente, críticos afirmam que Luiz Gonzaga nunca teria ingressado nos quadros da PM, sendo um civil envolvido no conflito e apontado muitas vezes pejorativamente com um “doidinho” ou “débil mental”. Essa versão aparece principalmente no depoimento de sobreviventes do confronto que surgiram nos anos seguintes, por meio de livros, artigos e matérias especiais nos jornais da cidade.

Imagem gerada por IA do soldado Luiz Gonzaga baseado no boletim da PM

Quem desacredita a figura heroica do soldado Luiz Gonzaga argumenta a falta de documentos, fontes primárias e relatos comprobatórios, sobretudo, nos jornais da época que noticiaram o conflito e suas consequências logo após o ocorrido. Um exemplo, seria a reportagem do jornal “A República”, de 29 de novembro de 1935, na qual não cita ou registra o soldado como uma das vítimas, nem sua transcrição no jornal carioca “Correio da Manhã”, do dia 30. Outro relato que não cita o o assassinato é a visita do interventor Rafael Fernandes, como consta no livro a “Insurreição Comunista de 1935”, de Homero Costa (1995, reeditado em 2015). E por fim, a hipótese que o relatório oficial do órgão de Segurança foi alterado.

Talvez o maior opositor da ideia do heroísmo de Gonzaga seja do militar revoltoso do 21º Batalhão de Caçadores (21 BC), o sargento Sizenando Filgueira da Silva, que em 1935 lutou ao lado dos comunistas. Ao longo dos anos seu depoimento foi amplamente replicado em materiais de jornais e livros, descrevendo Luiz Gonzaga como um “menor de idade” que circundava o quartel da PM e durante a revolução, deram um fuzil em suas mãos.

“Ele (Luiz Gonzaga) apenas era um débil mental, menor de idade, e deram-lhe um fuzil para acompanhar os que fugiam do quartel em procura da Base Naval. Depois que fiz a prisão do Major Júlio (Comandante do Batalhão da PM), e de um Coronel do Exército, eu olhava para a direita e vi quando ele estava procurando fazer pontaria para atirar. Antes que ele atirasse, eu atirei; só dei um tiro e ele caiu. Ele estava por trás de uma moita, no mangue, fazendo pontaria, vi que era para mim, a uns 80 metros de distância. O tiro foi no peito, deu um pulo e caiu para o outro lado. Aí mandei buscá-lo e botei o corpo dele ao lado dos outros prisioneiros, do major Luiz Júlio e do coronel Pinto Soares,”, relatou o sargento Sizenando.

O propenso autor dos disparos sempre questionou com estranheza, quando dava entrevistas, o fato dele não ser reconhecido como o protagonista da morte do Luiz Gonzaga. Por fim, ele insiste não ser um herói das fileiras da PMRN, mas apenas o “doidin” da cidade. Contra o depoimento de Sizenando pesa o seu pensamento ideológico e o sentimento de revanchismo, pois no final dos 4 dias, os comunistas saíram derrotados, então não seria interessante falar sobre heróis resistentes.

Medalha do Mérito Policial Luiz Gonzaga

Mas como se iniciou essa confusão em torno do nome do soldado Luiz Gonzaga?

Existe quase que um consenso de que tudo começou com a alteração dos primeiros relatos, sobretudo, do então chefe da polícia, João Medeiros Filho, pois no seu primeiro livro “Meu Depoimento”, publicado em 1937, cita apenas três vítimas fatais: Octácilio Werneck, Arnaldo Lyra e José Pedro Celestino, o que foi corroborado por Câmara Cascudo, em livro “A História da cidade do Natal” (1947). Em 1980, surge o nome de Gonzaga entre as vítimas, em um novo livro do João Medeiros Filho, intitulado “82 Horas de Subversão”.

Em carta, Medeiros deixou o registro transcrito abaixo:

“Quanto a mim, posso esclarecer que realmente houve uma alteração de um livro para o outro, de boa fé (sic), visando a harmonizar os textos, valendo-me da autoridade funcional que tinha como Diretor do Departamento de Segurança Pública na época da rebelião”. (Transcrição do livro “Polícia Militar dos RN: Fatos Históricos e Desafios Contemporâneos”, página 77).

Ao que parece, entre as publicações dos dois livros, nos anos de 1937 e 1980, novos documentos vieram à tona. Na publicação de 1980, João Medeiros acrescentou a transcrição do Boletim Regimental Nº 3, de 31 de outubro de 1935, no item IV – Alistamento:  De acordo com o Artigo 4 do Regulamento em vigo, nesta data, alistaram-se para servir neste Batalhão, os civis e reservistas abaixo: Civil – Luiz Gonzaga, filho de Manoel Gonzaga, nasceu em 1917, natural de Santana do Matos, solteiro, cor morena, cabelos castanhos, olhos castanhos, nariz afilado, boca regular, imberbe (sem barba), rosto oval, analfabeto, vacinado, sem sinais particulares, sem ofício, não sabe nadar, com 1,55 m de altura, com o qual fica agregado à Cia de Metralhadoras, com o número 1.075 (ou 1.076).

A inexistência dos documentos originais como os boletim da PM referentes ao ano de 1935 dificultam qualquer comprovação do fato sobre o ingresso de Luiz Gonzaga como funcionário público do Estado. Contudo, existem transcrições como a do livro “82 Horas de Subversão” são uma boa fonte, pois vão além de um simples nome ao descrever detalhes interessantes como a altura, cor da pele, o analfabetismo, entre outros, sem citar nada sobre as condições mentais.

O livro da Polícia Militar traz outros fragmentos de ofícios, como a promoção do soldado nº 1076, Luiz Gonzaga, ao posto de cabo da Cia de Metralhadoras, assinada pelo comandante da PM, major Júlio César, em 29 de novembro de 1935, após sua morte em combate contra os comunistas. No livro “Polícia Militar dos RN: Fatos Históricos e Desafios Contemporâneos”, é dito que, no mesmo Boletim Geral da promoção a cabo, também é descrito a exclusão do militar por falecimento, referindo-se ao combate ocorrido no dia 24 de novembro de 1935.

Esses boletins ficaram restritos aos quartéis. Quando pesquisamos os decretos estaduais, encontramos o número 154, publicado em 27 de maio de 1936, cinco meses após a morte, tratando da pensão de Luiz Gonzaga para seu pai Manoel Gonzaga. Três anos depois, em 23 de março de 1939, encontramos o Decreto Estadual nº 703, transferindo o benefício para sua mão Maria Gonzaga de Oliveira, que descreve as condições de morte do soldado “em defesa da legalidade por ocasião do levante comunista”.

Decreto Estadual 703 transferindo a pensão do soldado Luiz Gonzaga a sua mãe (Arquivo Nacional)

Contudo, o primeiro registro público do ato heroico de Gonzaga aconteceu em 24 de novembro de 1936, um convite para a “missa de 1 ano do sufrágio da alma do cabo Luís Gonzaga de Souza”. Outros documentos oficiais que citam seu nome é a Lei Estadual 127, de 9 de novembro de 1937, que destina recursos para a construção do túmulo no Cemitério do Alecrim, com a primeira comemoração nos anos de 1970, provavelmente em 1975 por ocasião dos 40 anos da Intentona.

Nota do editor:

Baseado nas transcrições dos boletins gerais, entendemos que é factível a existência da figura do soldado Luiz Gonzaga e seu ato de bravura, sem esquecer que houve outras mortes de civis e militares feridos gravemente. Além disso, tem o depoimento do comandante da PM à época, o major Luiz Júlio , que lembrou do soldado como um bravo combatente na função de rearmamento da metralhadora e uma pessoa desbocada.

E por fim, mesmo aceitando a hipótese de ser um civil que morreu tentando defender o quartel, sobretudo, o estado democrático, naturalmente ele passaria a ser incorporado às forças de segurança.

Referências:

CORTEZ, Luiz Gonzaga. A Revolta Comunista de 1935 em Natal: Relatos da Insurreição que gerou o primeiro soviete nas Américas. Natal/RN. 2005.

SILVA, João Batista. Polícia Militar do Rio Grande do Norte: Fatos históricos e desafios contemporâneos. 1ª Edição. Serviço Social do Comércio do Rio do Norte (Sesc RN). Natal/RN. 2025.

WANDERLEY, Rômulo C. História do Batalhão de Segurança (A Polícia Militar do RN , de 1834 a 1968), Natal. 1969.

Arquivo Nacional, Decretos do Estado do Rio Grande do Norte.

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