Janeiro de 1943: os aliados contra-atacam

Na manhã de 6 de janeiro de 1943, os tripulantes do submarino alemão U-164, o marinheiro de 2ª classe Gerard Jadike (ou Jädike) e o contramestre Schonfelder estavam tomando banho em meio ao Oceano Atlântico, em um raro momento de lazer que a guerra proporcionava. Aquele dia começou quente, com o céu ensolarado apesar de contar com algumas nuvens e o mar calmo. O submarino alemão navegava tranquilamente no Oceano Atlântico, próximo à costa Ceará, ao ponto de permitir até esse momentos de descontração aos tripulantes, que usavam apenas shorts no lugar dos uniformes. A nave seguiu viagem pacientemente, deixando um rastro discreto no mar com espuma branca.

Enquanto isso, a cerca de mil metros ou 3 mil pés acima, no céu estava a aeronave PBY-5A “Catalina”, número 2 do esquadrão VP-83 da Marinha Americana (United State Navy – US Navy), baseado em Natal/RN, que tinha decolado da base aérea de Belém, no Pará, depois de dois dias realizando a escolta de comboios navais entre o Brasil e a ilha de Ascensão. A tripulação era composta pelo tenente Bill Ford (piloto), o tenente Dawkins (copiloto) e Billie Goodell (artilheiro de ponto 50).

Em alguns segundos, as rotinas dos marinheiros alemães e da tripulação no Catalina iriam se cruzar e entrariam para a história do combate aeronaval, transformando a vida de todos. Foi a primeiro vez que um avião da marinha norte americana afundou um submarino alemão, no Atlântico Sul, em pelo menos dezoito meses.

Billie Goodell de posse de sua .50 (Fonte: US Navy)

Relato de Billie Goodell:

O sr. Ford perguntou se queríamos voar de volta sobre a selva ou sobre o oceano. Ninguém sabia, por isso ele disse que iria lançar uma moeda. O resultado foi que seguiríamos a rota do oceano. Decolamos e rumamos para sul. A tripulação estava cansada de todas as horas que tínhamos passado no ar nos dias anteriores, por isso dissemos para dormirem e descansarem um pouco. Entretanto, eu estava sozinho no posto traseiro, sentado ao lado da metralhadora de calibre .50 de bombordo (à esquerda quase na cauda da aeronave). Estávamos a cerca de três mil pés sobre o mar. Eu tinha um par de binóculos e estava a tentar distinguir onde a água e o céu se encontravam.

Havia algumas nuvens, mas eu conseguia ver manchas de água azul de vez em quando. Numa das aberturas, avistei um rasto branco e um submarino a bombordo. Chamei o tenente Ford e disse-lhe que havia um submarino; eu já tinha soltado a metralhadora de bombordo quando fizemos uma curva acentuada à esquerda e colocámos o 83-P-2 num mergulho íngreme. Ele tinha-o avistado e foi para o ataque. Comecei a metralhar o submarino e os projéteis traçadores voavam sob a asa de bombordo (à esquerda).

Consegui ver a tripulação no convés, a maioria em calções de banho. Tentaram tirar as coberturas dos canhões do convés, mas nunca conseguiram. O Tenente Ford lançou duas cargas de profundidade, uma de cada lado. Continuei a disparar enquanto as bombas explodiam e o submarino subiu e partiu-se ao meio. Fizemos uma curva acentuada para bombordo e eu continuei a disparar; de repente, uma mão no meu ombro me puxou para trás e disse: “Bill, estás a matar todos os sobreviventes”.

O piloto desceu até cerca de cem pés e começou a circular. Um alemão estava agarrado a um tanque de algum tipo e outro estava a nadar em direção a ele. Havia alguns corpos na água, muito óleo e destroços. A água começou a ficar agitada. Fizemos uma passagem e atirei um bote salva-vidas pela lateral. As correntes afastaram-no deles, por isso fomos contra o vento e jogamos o último bote, que por acaso era o nosso. Ele insuflou e ambos os homens subiram a bordo. Peguei num recipiente de água, envolvi-o num colete salva-vidas e atirei-lhes. O mar ficou agitado e perdemos o bote de vista. Comunicamos a sua posição pelo rádio e rumámos para Fortaleza.

Sobreviventes do U-164 desembarcando em Natal sob forte escolta (Foto: NARA)

Esse relato está transcrito no livro Fairwing Brazil e demonstra ao fim como a guerra apresenta dois lados bem distintos, a necessidade de atacar o inimigo e ao mesmo tempo o cumprimento de algumas regras em cenário de aparente desordem, quando o mesmo avião que lançou as bombas também lança botes salva vidas.

Desse ataque, entre os 54 tripulantes, cerca de dois deles sobrevieram e foram resgatados, justamente os dois que citamos no início do texto e ao que parece foram arremessados ao mar por estarem na torre do submarino. Eles foram salvos pelo bote que ficou à deriva por seis dias, até serem ajudados por nativos na costa do Maranhão, sendo levados presos para Fortaleza e em seguida Natal. O desembarque deles em Parnamirim Field ficou eternizado em foto, enquanto que o destino dos outros tripulantes do U-164 foi selado quando o submarino afundou a 65 milhas da costa do Ceará, na posição 1°58’00.0″S 39°23’00.5″W.

Documento da Marinha Alemã tratando do afundamento do U-164
Posição 1°58’00.0″S 39°23’00.5″W registro de afundamento do U-164

Após 18 meses ou quase dois anos, esta seria a primeira vitória, ou melhor, a primeira vez que um submarino seria afundado no Atlântico Sul desde o início da guerra. Cronologicamente, podemos identificar claramente como se deu o avanço dos submarinos ao longo da guerra, com pelo menos três marcos. Até a entrada dos EUA no conflito, os U-boots atuavam mais próximos da Europa e norte da África. O segundo marco, após dezembro de 1941, os afundamentos de navios mercantes avançaram para o lado ocidental e sul do Oceano Atlântico, chegando bem perto da América. Já a partir de agosto de 1942, os ataques passaram a acontecer ao longo de todo o Atlântico, com alguns destaques para a costa brasileira.

Esse cenário foi consequência da entrada oficial do Brasil com a declaração de guerra ao Eixo e o aumento do fornecimento de matéria prima aos aliados, o que era um risco para os alemães. Um fator complicador apontado por pesquisadores do tema diz respeito à determinação de colocar canhões de baixo calibre e armas nos convés dos navios mercantes, o que tornavam automaticamente alvos militares apesar de não apresentarem risco aos submarinos.

Os submarinos são meio de movimentação registra, com corredores apertados cheios de tubos e válvulas, ambientes apertados e sem qualquer tipo de luz natural. Combinando isso ao estresse da guerra, é uma situação de grande estresse que impacta diretamente no psicológico e moral da tripulação. O que talvez poucos saibam é que um submarino se locomove em parte do tempo como um navio, acima do nível da água, utilizando um motor a diesel e quando necessário submerge e passa a usar o motor elétrico. A camuflagem dele é simplesmente o fundo do mar, sendo muito difícil sua identificação.

Enquanto dezenas de alemães afundavam nas profundezas do oceano e outros lutavam pela vida se agarrando nos destroços, a tripulação do Catalina 83-P-2 rumava à Fortaleza e com um sentimento de dever cumprido. Segue o relato de Billie Goodell.

Pousamos com cerca de oitenta galões de gasolina. Eu tinha disparado contra a antena sob a asa de bombordo e tivemos de a consertar. O Tenente Ford fez reservas na cidade e todos fizemos o check-in. Estávamos todos sentados em uma mesa grande para o jantar da vitória. Quase no fim da refeição, olhei para cima e nunca vi tantos oficiais de alta patente. Gritei “sentido” e todos nos levantámos. “À vontade, sentem-se, por favor.” Era o Almirante Ingram e a sua equipe que tinham recebido a notícia e voado até Fortaleza. A primeira coisa que ele disse foi: “qual de vocês é o Goodell e o Ford”. Depois de apertarem as mãos a todos, partiram.

Na manhã seguinte, decolamos muito cedo para Natal. Os homens ainda estavam nas suas tendas. O Tenente Ford disse: “Vamos acordá-los”. Ele ligou para a torre e obteve permissão para fazer um voo de vitória. Ele desceu aos cinquenta pés, acelerou ao máximo e passou sobre as tendas abanando as asas. Foi emocionante. Os rapazes saíram correndo de roupa íntima sem saber que que raios tinha acontecido. Soubemos mais tarde que os dois sobreviventes foram recolhidos e estavam em Fortaleza. Enviamos um avião e trouxemos para Natal.. O U-164 não afundaria mais nenhum navio Aliado.

A participação no fato histórico rendeu a Billie Goodell a condecoração “Distinguished Flying Cross” pelo seu papel fundamental no avistamento e ajuda na destruição do U-164. A medalha foi entregue pelo próprio almirante Ingran, o comandante da US Navy no Atlântico Sul. Entre 6 de janeiro e 15 de abril de 1943, PBYs do VP-83 destruíram o U-164, o U-507 e o Archimedes (um submarino italiano). Estes foram os primeiros 3 submarinos afundados por aviões da Fairwing 16, uma força tarefa de contra-ataque aérea.

Nota do editor: Apesar de ter se passado quase 90 anos e da existência de inúmeros documentos, ainda existem pessoas que defendem que o afundamento de navios brasileiros na segunda guerra mundial foi uma grande conspiração americana para forçar a entrada no Brasil no conflito. Consideramos improvável.

Nota do editor 2:Para chegar ao nome dos dois sobreviventes do U-164, tivemos que cruzar informações e chegar no consenso sobre as identidades, pois apesar de ter o relatório do interrogatório, propositalmente, os americanos não citam nomes.

Links relacionados:

https://www.uboatarchive.net/U-164A/U-164.htm

Relatório da US Navy com interrogatório dos sobreviventes do U-164