A empresa aérea alemã Lufthansa decidiu reescrever sua história. De forma explicita, decidiu reconhecer sua relação com o regime nazista entre 1933 e 1945, ao anunciar que celebrará 100 anos em 2026, o atual CEO da companhia, Carsten Spohr afirmou que empresa tem orgulho do que representa hoje, mas admitiu que “ignorar anos difíceis sombrios e terríveis” do período nazista seria uma postura desonesta.
Até então, havia o entendimento de que a companhia criada em 1926, a Deutsche LuftHansa (ou Luft Hansa), era dissociada da empresa Lufthansa AG, fundada em 1953, na Alemanha pós-guerra. Contudo, pesquisadores defendem a associação com o regime autoritário bem como a concessão de benefícios, principalmente, no contexto político, econômico e militar.
E mais uma vez, quando falamos em aviação na primeira metade do século XX, Natal se apresenta como um dos palcos ou até mesmo agente protagonista da história. Na cidade, existia uma certa admiração pelos alemães e todo o progresso que eles representavam nos anos 1930, com direito a eventos sociais com a presença de simpatizantes e a símbolos nazistas expostos, servindo de apoio à Lufthansa e ao Sindicato Condor, uma empresa subsidiária.

O prédio principal de operações ficava às margens do Rio Potengi, com hangar, uma rampa de manutenção e residência para os trabalhadores. Atualmente, o local é ocupado pelo quartel do 17º Grupamento de Artilharia e Campanha (17GAC) do Exército Brasileiro. Mas havia representações na Ribeira e Cidade Alta.
Em 1930, quatro anos após ser criada na Europa, a Lufhansa já pensava em ampliar sua atuação chegando até a América passando por Natal. Em março, a Associated Press noticiou que o diretor geral da Luft Hansa o senhor Martin Wrosky revelou o plano de um voo transatlântico entre a Espanha e o Brasil, durante encontro da Royal Aeronautical Society

Como os aeroplanos da época não tinham autonomia, a ideia era viabilizar uma rota mais rápida de correio aéreo utilizando aviões nos território continentais e navios no oceano Atlântico. Na Europa o trajeto seria por equipamentos da Luft Hansa e no Brasil a viagem seguiria pelo Sindicato Condor, uma subsidiária da empresa alemã.
Já em 23 de março de 1930, O Governo Brasileiro por meio do Ministério da Viação aprovou a operação com transporte aéreo de correspondências entre o Brasil e a Europa, em que o Sindicato Condor operaria entre o continente e Fernando de Noronha. Do arquipélago, os malotes seriam carregados em navios e a partir da Espanha ou Portugal seguiriam em aviões da Lufthansa até Berlim. No mesmo comunicado, fica autorizado horários, as tarifas para passageiros e bagagens entre Recife e Natal.

Veja o que dizia a matéria do jornal Correio da Manhã:
“Jangadeiro” entregou ao “Cap Arcona” as malas postaes que levou daqui
Natal, 22 (A. A.) — O hydroavião “Jangadeiro”, do Syndicato Condor, que hontem levantou vôo às 5.00 da manhã do Rio de Janeiro, e hontem mesmo chegado a esta capital, levantou vôo hoje às 8 horas da manhã, e foi alcançar, em águas de Fernando de Noronha, o transatlântico “Cap Arcona”, ao qual passou as malas postaes que trazia da capital da Republica e as que aqui recebeu.
Depois disso, o “Jangadeiro” regressou a este porto, onde amerissou, sem novidade, às 16 horas.
Inaugura-se assim com êxito o serviço de malas postais aéreas que o Syndicato Condor estabeleceu em combinação com a “Lufthansa”, que as transportará de Lisboa para Berlim, recebendo-as daquele transatlântico.
A capital alemã fica assim ligada ao Brasil, do ponto de vista postal, por nove dias apenas de viagem. A passagem de malas do “Jangadeiro” para o “Cap Arcona” deu-se, com exito, exatamente às 11 horas da manhã. O hydroavião “Jangadeiro” regressa amanhã a Recife, de onde levantará vôo, amanhã mesmo, com destino ao Rio de Janeiro. (fim da transcrição)
A matéria detalha que o serviço postal duraria apenas nove dias, talvez mais eficiente do que no dias atuais. Nessa mesma época, a Lufhansa concorria com os franceses da Aeropostale e com próprios alemães que operavam o dirigível Zeppelin, com o objetivo de implantar uma rota regular de correio aéreo.
Em 1933, com a ascensão de Hitler, a Lufthansa passou a atuar diretamente no transporte de autoridades do regime, no apoio logístico à Luftwaffe e, mais tarde, na indústria bélica. Mas também manteve o transporte de malas postais, ao ponto de fazer uma rota totalmente aérea, consolidado em 1935, quando a Lufthansa realizou o feito de levar malas postais em apenas 36 horas, no percurso entre Berlim e Natal.

É nesse contexto que a presença da Lufthansa e do Sindicato Condor em Natal precisa ser compreendida. A cidade potiguar não era apenas uma escala conveniente: era o ponto mais próximo da África a partir das Américas, elemento vital para qualquer projeto de alcance transatlântico.
A instalação da base de hidroaviões na região da foz do Potengi, os voos regulares para o Sul do Brasil e a operação conjunta Condor-Lufthansa no serviço transatlântico colocaram Natal no centro de uma rede aérea que servia, simultaneamente, aos interesses comerciais e estratégicos da Alemanha. Lembrando que à época, o Sindicato Condor transportava passageiros no Brasil, contudo, os voos transatlânticos eram destinados apenas aos malotes postais.
Embora não existam indícios de atividades militares alemãs diretas em Natal antes da guerra, é inegável que a aviação civil alemã fazia parte de um projeto estatal maior, no qual empresas como a Lufthansa funcionavam como extensões técnicas e logísticas do regime. Não por acaso, em 1944, mais de dois terços da receita da companhia já vinham da indústria de armamentos e de serviços ligados à guerra.

A postura reservada dos aviadores alemães em Natal, descrita em jornais e testemunhas da época, contrasta com a intensa convivência de franceses e italianos com a população local. Esse isolamento não era casual: refletia uma cultura corporativa disciplinada, hierarquizada e alinhada a um estado autoritário que já se preparava para o conflito.
O ano de 1939 foi um ponto de virada nesse progresso dos alemães. Em agosto, a Condor anunciou a aquisição do moderno avião Focke-Wulf 200, um gigante quadrimotor com 38 metros de envergadura e 23,5 m de comprimento, com teto operacional em torno dos 7.000 m. O interessante desse feito é que no percurso de 35 horas, entre Berlim e o Rio de Janeiro, o avião teve que fazer uma escala em Natal, pousando na pista de Parnamirim, que em menos de 2 anos seria uma base aliada sob coordenação dos EUA.
Em 1º de setembro, a Alemanha invade a Polônia e tem início o período conhecido como segunda guerra mundial. Na Lufthansa, pilotos civis tornaram-se militares, rotas comerciais deram lugar a missões estratégicas e a aviação alemã revelou, sem disfarces, sua função dentro do esforço de guerra do Terceiro Reich. A guerra trouxe consequências para o Brasil, pois a Lufthansa decidiu suspender os voos transatlânticos e a suposição mais aceita é que a empresa se antecipou aos esforços de guerra à serviço do Governo Alemão. Já a subsidiária – o Sindicato Condor – continuou suas operações até 1942, quando seus cargos executivos passaram para brasileiros.

Ao revisitar sua história, a Lufthansa também nos obriga a revisitar a nossa. Natal não foi apenas cenário da presença americana durante a Segunda Guerra Mundial; foi, antes disso, um elo fundamental na engrenagem da aviação alemã no Atlântico Sul. Compreender essa trajetória é essencial para entender por que a cidade se tornou estratégica — e por que sua história está intimamente ligada às grandes disputas globais do século XX.


