Em 9 de agosto de 1943, o Brasil deu um dos passos mais importantes de sua participação na Segunda Guerra Mundial. Naquele dia, uma portaria do Ministério da Guerra estruturou oficialmente a Força Expedicionária Brasileira (FEB) — a força que, menos de um ano depois, atravessaria o Atlântico para combater as tropas do Eixo na Itália.
A Portaria Ministerial nº 4.744, publicada em boletim reservado em 13 de agosto, estabelecia a organização da FEB e de sua principal unidade de combate, a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE).
Era o começo de uma transformação que levaria o Exército Brasileiro dos quartéis do Brasil aos campos de batalha da Europa. A estrutura planejada para a 1ª DIE seguia o modelo de uma divisão de infantaria moderna.
Sob o comando de um general de divisão, a unidade teria um quartel-general, três regimentos de infantaria e uma Artilharia Divisionária composta por quatro grupos — três de 105 mm e um de 155 mm.
Também estavam previstos um batalhão de engenharia, um batalhão de saúde, um esquadrão de reconhecimento, uma companhia de comunicações e uma esquadrilha de aviação destinada às missões de ligação e observação.
A chamada tropa especial reuniria ainda unidades de manutenção, intendência, saúde, polícia e sepultamento, além de uma banda de música. Na prática, começava uma enorme tarefa: transformar soldados brasileiros em uma força capaz de combater segundo os padrões de uma guerra industrial e mecanizada.
Uma das primeiras decisões a ser tomada dizia respeito ao comando da nova força.
Ainda em agosto de 1943, o general João Batista Mascarenhas de Morais, então comandante da 2ª Região Militar, foi convidado pelo ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, para assumir o comando de uma das divisões da FEB.
Outros generais também chegaram a ser considerados, entre eles Valentim Benício, Amaro Bittencourt e Francisco Gil Castelo Branco.
O general Estêvão Leitão de Carvalho era o nome defendido pelo chanceler Osvaldo Aranha. Além da amizade entre os dois, Leitão de Carvalho havia participado das negociações em Washington relacionadas ao envio de uma força brasileira para a guerra.
A escolha acabaria recaindo sobre Mascarenhas de Morais, que se tornaria o comandante da FEB durante sua campanha na Itália.
A criação da FEB também obrigou o Exército Brasileiro a mudar sua maneira de pensar a guerra. Durante décadas, a doutrina militar brasileira havia recebido forte influência francesa. A nova realidade da Segunda Guerra Mundial, entretanto, aproximaria o Brasil dos métodos empregados pelos Estados Unidos.
Oficiais brasileiros foram enviados aos EUA para realizar cursos e conhecer a organização e os métodos de combate norte-americanos. Muitos passaram cerca de três meses na Escola de Comando e Estado-Maior de Fort Leavenworth, no Kansas, onde ttiveram contato com uma concepção de guerra baseada em mobilidade, mecanização, velocidade e coordenação entre diferentes armas.
As longas marchas a pé e o emprego de cavalos perderiam espaço para veículos motorizados. A padronização de armas e equipamentos também se tornaria fundamental. Era uma mudança profunda para um Exército que ainda precisava adaptar sua estrutura à realidade da guerra moderna.
A transformação não estava apenas na doutrina.
A nova organização previa, por exemplo, grupos de artilharia equipados com peças de 105 mm e 155 mm, calibres que o Brasil ainda não possuía em quantidade adequada para equipar uma divisão daquele padrão.
A solução viria por meio da aproximação militar com os Estados Unidos, que forneceria equipamentos, armamentos, veículos e treinamento. A FEB começava, assim, a ser moldada segundo o padrão norte-americano.
O caminho até a Itália
A portaria de 9 de agosto de 1943 não significava que a FEB estivesse pronta para embarcar. Muito pelo contrário. A partir daquele momento começava um longo processo de seleção, organização, treinamento, reequipamento e adaptação dos militares brasileiros.
Nos meses seguintes, a FEB passaria por novas mudanças em sua estrutura e enfrentaria dificuldades para transformar sua organização no papel em uma força efetivamente operacional.
O resultado desse esforço seria a formação de uma força expedicionária com mais de 25 mil brasileiros, que desembarcaria na Itália a partir de julho de 1944.
Pouco mais de um ano depois da assinatura da Portaria nº 4.744, soldados brasileiros estariam combatendo nos Apeninos, enfrentando tropas alemãs e italianas do Eixo em batalhas como Monte Castello, Castelnuovo e Montese.
A história da FEB, portanto, começou muito antes do desembarque em Nápoles. Começou em 9 de agosto de 1943, quando o governo brasileiro formalizou a estrutura de uma força que ainda precisava ser treinada, equipada e preparada para uma guerra que acontecia a milhares de quilômetros de casa.
Daquela portaria sairia uma das páginas mais marcantes da história militar brasileira.
O Brasil estava prestes a enviar seus soldados para combater na Europa. E a FEB acabava de nascer.
Os bastidores
A criação de uma força expedicionária por parte do Brasil foi discutida por meses, desde a declaração de guerra em agosto de 1942 e ao longo desse período, cogitou-se envolver tropas brasileiras nos Açores, Guianas, Panamá e até Norte da África. Contudo, apenas em agosto de 1943, nasceu no papel a Força Expedicionária Brasileira (FEB) e a ideia inicial era convocar 75 mil inscritos, o equivalente a três divisões, mas este número chegou a 25 mil soldados – entre homens e mulheres – das mais diversas regiões do Brasil, sendo 358 deles potiguares
