A recente escalada nas tensões diplomáticas entre os governos da Argentina e do Brasil, sob o comando de Javier Milei e Luiz Inácio Lula da Silva levanta uma questão interessante do ponto de vista da aviação militar: haveria espaço para que a crise afetasse a chegada dos F-16 adquiridos pela Argentina junto à Dinamarca?
O momento é de crescente desgaste nas relações bilaterais. Após novas declarações de Milei contra Lula e o governo brasileiro, o Itamaraty voltou a convocar o embaixador da Argentina em Brasília para prestar esclarecimentos — a segunda convocação em um curto intervalo de tempo. O gesto diplomático evidencia que a crise deixou o campo das declarações isoladas e passou a produzir efeitos formais na relação entre os dois países.
A resposta, em termos jurídicos, é sim. Aeronaves militares estrangeiras dependem de autorização prévia para sobrevoar o espaço aéreo brasileiro, e essa decisão é uma prerrogativa soberana do Estado. Na prática seria o deferimento da Autorização de Voo do Estado-Maior da Aeronáutica (Avoen), nome dado a permissão para que aeronaves passem pelo espaço aéreo brasileiro, com ou sem pouso, no território subjacente, emitida pelo Estado-Maior da Aeronáutica às aeronaves militares e civis públicas estrangeiras, bem como às civis nacionais e estrangeiras que estiverem transportando explosivos ou material bélico.
Entretanto, entre o que é juridicamente possível e o que é politicamente conveniente existe uma diferença importante. Uma eventual negativa ao sobrevoo seria interpretada como uma medida concreta de retaliação diplomática, ultrapassando o campo das declarações políticas. Além disso, envolveria outros agentes interessados na entrega dos equipamentos militares, como os Estados Unidos, parceiro de ambos os lados.
Historicamente, Brasil e Argentina têm preservado a cooperação em defesa mesmo durante períodos de divergências entre seus governos. Os dois países compartilham mecanismos de confiança mútua e mantêm uma relação estratégica que vai muito além das disputas entre seus presidentes.
Assim, embora a atual crise desperte esse debate, não há, até o momento, qualquer sinal de que a transferência dos F-16 seja afetada. Ainda assim, o episódio ilustra como operações militares internacionais dependem não apenas de planejamento logístico, mas também do delicado equilíbrio das relações diplomáticas.
Outras etapas devem acontecer antes de qualquer medida mais dura, como notas de repúdio, adiamento de visitas dos presidentes e ministros, revisão de licenças de importação e taxação de produtos como medida de pressão econômica, antes de qualquer suspensão de cooperação militar, científica, energética e defesa.
