Dois meses após o Dia D, enquanto os Aliados avançavam na libertação da França ocupada, o presidente americano Franklin Delano Roosevelt enviou ao Congresso dos Estados Unidos um relatório destinado a justificar bilhões de dólares investidos no programa Lend-Lease. Em meio às estatísticas de guerra, uma cidade brasileira surgia como peça-chave da vitória aliada: Natal, no Rio Grande do Norte.
O documento era o “Décimo Sexto Relatório ao Congresso Sobre as Operações de Empréstimo e Arrendamento (Lend-Lease)”, referente ao período até 30 de Junho de 1944, sobre o gigantesco sistema de cooperação militar que permitia aos Estados Unidos fornecer armas, equipamentos, matérias-primas e outros recursos aos países aliados.
Na descrição do relatório é dito que:
“O presidente, de tempos em tempos, mas com frequência não inferior a uma vez a cada noventa dias, transmitirá ao Congresso um relatório das operações sob esta Lei, exceto as informações que julgar incompatíveis com o interesse público divulgar.” [Da Seção 5, subseção b da “Lei para Promover a Defesa dos Estados Unidos” (Lei Pública Nº 11, 77º Congresso, 1ª Sessão).]
Na prática, o presidente estava justificando aos congressistas os gastos elevados com o fornecimento de equipamentos aos aliados dentro do programa de arrendamento, com Natal no centro de tudo, com rotas para África, Mediterrâneo, China e Europa.

No documento, uma cidade brasileira aparece em destaque: Natal, no Rio Grande do Norte. A menção é particularmente significativa porque Roosevelt não apenas cita a capital potiguar. Ele explica ao Congresso por que Natal era tão importante para a estratégia militar americana.
O capítulo em questão foi nomeado por “Bases and Supply Routes” (“Bases e Rotas de Suprimento”), o qual afirma que mais da metade de todos os carregamentos de Lend-Lease destinados aos países da América Central e da América do Sul haviam sido enviados ao Brasil.
Em seguida, Roosevelt descreve como “Natal in Brazil is the nearest point in the Western Hemisphere to Africa” – Natal como o ponto do Hemisfério Ocidental mais próximo da África – explicando que a posição geográfica permitia controlar os acessos do Atlântico Sul em direção ao Caribe e ao Canal do Panamá. E, principalmente, define Natal como o “jumping off point” — o ponto de partida — da rota aérea transafricana do Atlântico Sul.
Era por essa ligação que, segundo o documento, a maioria dos aviões do Exército e da Marinha dos Estados Unidos, além de aeronaves fornecidas pelo próprio programa Lend-Lease, era transportada em direção às campanhas militares na África e no Mediterrâneo.
A afirmação ajuda a dimensionar o papel desempenhado por Parnamirim Field, o grande complexo aeroportuário instalado pelos americanos. Muito mais do que uma base aérea localizada no Nordeste brasileiro, Parnamirim Field tornou-se um dos principais elos da gigantesca cadeia logística que conectava o continente americano ao teatro de operações europeu e africano.

No mesmo trecho, o presidente destaca a participação brasileira no esforço de guerra. As forças navais e aéreas brasileiras atuavam em patrulhas antissubmarino e operações de comboio no Caribe e no Atlântico Sul.
O documento também registra que o Brasil havia passado a participar diretamente da guerra na Europa: a primeira unidade da Força Expedicionária Brasileira (FEB) desembarcara em Nápoles, em 16 de julho de 1944, para participar da campanha da Itália. Assim, no relato encaminhado por Roosevelt ao Congresso, três elementos aparecem conectados: o Brasil, Natal e a participação brasileira na guerra.
A construção e expansão de Parnamirim Field transformaram essa vantagem geográfica em capacidade logística. Entre 1942 e 1945, Parnamirim Field tornou-se o maior aeroporto militar americano fora do território continental dos Estados Unidos, recebendo um fluxo contínuo de bombardeiros, cargueiros e aeronaves de transporte em travessia para o outro lado do Atlântico.
Apenas para o Dia D os números se tornaram impressionantes, uma vez que a 8ª Força Aérea receberia 825 aeronaves, entre outubro e dezembro daquele ano. Enquanto que, a 9ª Força Aérea, tinha previsão de outros 130. Ou seja, seriam quase mil aviões, para esquadrões que operavam a partir da Inglaterra e estariam envolvidos na operação futura, tiveram que passar obrigatoriamente por Natal.
O próprio relatório de Roosevelt confirma que, em 1944, a rota continuava sendo intensamente utilizada, mesmo depois que Portugal passou a permitir aos americanos o uso dos Açores, criando uma rota alternativa pelo Atlântico Norte.
O documento se torna especial porque foi escrito e divulgado em plena guerra. Roosevelt poderia simplesmente ter mencionado o Brasil. Mas fez questão de destacar Natal pelo nome e explicar sua posição estratégica. Isso transforma o documento em uma fonte histórica especialmente valiosa para compreender o papel desempenhado pela cidade.
O relatório de 23 de agosto de 1944 demonstra que a importância de Natal não nasceu da memória ou da tradição oral. Ela foi reconhecida oficialmente pelo próprio presidente dos Estados Unidos em plena Segunda Guerra Mundial. Para Roosevelt, Natal era “o ponto do Hemisfério Ocidental mais próximo da África” e o ponto de partida da rota aérea que ajudou a sustentar a vitória aliada.
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Transcrição do documento:
SIXTEENTH REPORT TO CONGRESS ON LEND-LEASE OPERATIONS
For the Period Ended June 30, 1944
“The President from time to time, but not less frequently than once every ninety days, shall transmit to the Congress a report of operations under this Act except such information as he deems incompatible with the public interest to disclose.”
[From Section 5, subsection b of “An Act to Promote the Defense of the United States” (Public Law No. 11, 77th Congress, 1st Session).]
Bases and Supply Routes
All the lend-lease supplies that we have shipped have consisted of military and naval equipment or materials for manufacture into war equipment. More than half of all lend-lease shipments to Central and South American countries have gone to Brazil. Natal in Brazil is the nearest point in the Western Hemisphere to Africa. It commands the South Atlantic approaches to the Caribbean and the Panama Canal. It is the jumping off point for the South Atlantic Trans-African Air Route over which most of our own Army and Navy planes, as well as lend-lease planes, have been ferried for the African and Mediterranean campaigns. It continues to be heavily used today, along with an additional ferry route that Portugal made possible by granting landing rights on the Azores.
Brazilian naval and air forces, as well as the naval and air forces of other American Republics, have participated fully in antisubmarine patrols and convoy duty in the Caribbean and South Atlantic. On both the Atlantic and Pacific, bases vital to the defenses of the Panama Canal have been made available to us. Brazil is also participating in the war overseas. Her first expeditionary force landed at Naples July 16th to take part in the Italian campaign.
The cooperative war program of the American Republics has also resulted in a great expansion of trade between the United States and our neighbors to the south. We have imported from Latin America tremendously increased quantities of strategic materials vital to the production of the planes, guns, tanks, and ships United Nations forces are using to win the war—copper, manganese, quartz crystals, tin, rubber, rope fibers, and other materials. Since the Philippines and the Indies fell, virtually all the new supply of quinine which our soldiers need to fight off malaria has come from Latin America.
At the same time, our commercial exports to Latin America, for which we are paid in cash, have risen to 50 percent above pre-war levels, except to Argentina.
All the other American Republics receive lend-lease aid with the exception of Argentina and Panama. The defense needs of Panama are met by our own Panama Canal defenses.
Tradução (Português)
DÉCIMO SEXTO RELATÓRIO AO CONGRESSO SOBRE AS OPERAÇÕES DE EMPRÉSTIMO E ARRENDAMENTO (LEND-LEASE)
Para o Período Encerrado em 30 de Junho de 1944
“O Presidente, de tempos em tempos, mas com frequência não inferior a uma vez a cada noventa dias, transmitirá ao Congresso um relatório das operações sob esta Lei, exceto as informações que julgar incompatíveis com o interesse público divulgar.”
[Da Seção 5, subseção b da “Lei para Promover a Defesa dos Estados Unidos” (Lei Pública Nº 11, 77º Congresso, 1ª Sessão).]
Bases e Rotas de Suprimento
Todos os suprimentos do programa Lend-Lease (Empréstimo e Arrendamento) que enviamos consistiram em equipamentos militares e navais ou materiais para a fabricação de equipamentos de guerra. Mais da metade de todos os envios de Lend-Lease para os países das Américas Central e do Sul foram para o Brasil. Natal, no Brasil, é o ponto do Hemisfério Ocidental mais próximo da África. A cidade controla os acessos do Atlântico Sul ao Caribe e ao Canal do Panamá. É o ponto de partida para a Rota Aérea Transafricana do Atlântico Sul, através da qual a maioria dos aviões do nosso próprio Exército e Marinha, bem como aviões do Lend-Lease, foram transportados para as campanhas da África e do Mediterrâneo. Continua a ser intensamente utilizada hoje, juntamente com uma rota de transporte adicional que Portugal tornou possível ao conceder direitos de pouso nos Açores.
As forças navais e aéreas brasileiras, bem como as forças navais e aéreas de outras Repúblicas Americanas, participaram plenamente de patrulhas antissubmarino e missões de comboio no Caribe e no Atlântico Sul. Tanto no Atlântico quanto no Pacífico, bases vitais para as defesas do Canal do Panamá nos foram disponibilizadas. O Brasil também está participando da guerra no exterior. Sua primeira força expedicionária desembarcou em Nápoles em 16 de julho para tomar parte na campanha italiana.
O programa cooperativo de guerra das Repúblicas Americanas também resultou em uma grande expansão do comércio entre os Estados Unidos e nossos vizinhos do sul. Importamos da América Latina quantidades enormemente maiores de materiais estratégicos vitais para a produção de aviões, canhões, tanques e navios que as forças das Nações Unidas estão usando para vencer a guerra — cobre, manganês, cristais de quartzo, estanho, borracha, fibras de corda e outros materiais. Desde que as Filipinas e as Índias caíram, virtualmente todo o novo suprimento de quinino de que nossos soldados precisam para combater a malária veio da América Latina.
Ao mesmo tempo, nossas exportações comerciais para a América Latina, pelas quais recebemos em dinheiro, subiram para 50% acima dos níveis pré-guerra, exceto para a Argentina.
Todas as outras Repúblicas Americanas recebem ajuda do Lend-Lease, com exceção da Argentina e do Panamá. As necessidades de defesa do Panamá são atendidas pelas nossas próprias defesas do Canal do Panamá.
