Imaginem um tempo quando Natal era uma cidade bucólica, com poucas opções de lazer noturno e que ainda vivia com a lembrança da agitação e o desenvolvimento socioeconômico trazidos pelos militares americanos na segunda guerra. As opções de lazer eram os espaços públicos como praças, comércio, cinema, ouvir o rádio e ir ao teatro. Este último em especial é o motivo desse post, pois além do espaço físico adequado, era necessário as atrações, as pessoas em cena e por trás dela. Nessa pesquisa, descobrimos que o teatro como expressão cultural e suas mais variantes linguagens – artes cênicas, circense e musical – era pulsante em Natal com os mais variados grupos.
Identificamos, pelo menos, quatro grupos populares entre 1950 e 1960, como o Grêmio Dramático, Conjunto de Teatro Popular (CTP), o Teatro de Amadores de Natal (TAN), Sociedade Artística de Teatro (SAT), entre outros. Essas agremiações eram formadas em sua maioria por pessoas comuns, funcionários público, comerciários, donas de casa, que se reuniam para ensaiar no fim da tarde após o expediente. Em 10 de janeiro de 1948, o colunista Danilo, do Diário de Natal já relatava que eram: pessoas de repartições públicas e do comércio, que trabalhavam até a “tardinha” e tiravam a noite para ensaiar e se apresentavam sem desanimar, mesmo sem apoio do Poder Público ou filantropia.

Em 5 de abril do mesmo ano, Danilo notícia sobre a ideia de criação de um TAN – não confundam com o TAM, um era o Teatro de Amadores de Natal e outro o Teatro Alberto Maranhão – com o conjunto de regras do grupo e assinado por Meira Pires, sob o título “Coisa do Teatro”:
ASSUNTOS VÁRIOS PROGRAMA DO T.A.N.
- O programa do Teatro de Amadores de Natal é o seguinte:
- Se destina o Teatro a disseminar a arte no Estado.
- Preparar os amadores para o palco, ensinando-lhes desde a maquinaria à arte de representar.
- Descobrir elementos inclinados e possuidores de dotes de autor teatral.
- Fazer com que os que desejem escrever para o teatro façam os seus trabalhos à apreciação de uma comissão de leitura, que os julgará.
- No caso de aprovação, o texto, a encenação, a direção e a técnica ficarão a cargo do T.A.N., que dará o movimento que deverá ser aplicado à peça.
- Aproveitar todos aqueles que se apresentem desejosos de trabalhar pelo engrandecimento da arte em todo o Estado.
- A finalidade única do T.A.N. é fazer verdadeiros artistas do teatro.
- O seu lema será: fazer arte pela arte, para grandeza da terra.
- Serão aceitos todos e quaisquer elementos, mesmo sem ideia definida de trabalho.
- Para assuntos de diretoria teatral, dirija-se a esta seção.
Estão abertas as inscrições para o teatro de amadores. Procurar Meira Pires , à Rua Prudente de Morais, 550.

Isto em um tempo em que a única casa de espetáculos se resumia ao Teatro Carlos Gomes, inaugurado em 1904 e que em 1957 recebeu o nome de Alberto Maranhão, passando a ser conhecido pela sigla TAM.
Nesse contexto, surge Sandoval Wanderley. Natural da cidade de Assu, o artista, jornalista, poeta, teatrólogo, político, sempre circulou e foi muito bem aceito tanto pela sua atuação com a classe artística e como um defensor dela. Em 1941 deixa de ser um agente político após anos de perseguição por ser considerado sempre à esquerda do poder e se dedica quase que exclusivamente ao teatro, com cerca de 31 peças escritas. Sob sua influência é criado o Conjunto Teatral Potiguar (CTP), um grupo de teatro popular, rebatizado como Teatro de Amadores de Natal (TAN), em abril de 1951.
A história de Sandoval se mistura com a do “Teatrinho do Povo” na década de 1960. No jornal “Diário de Natal”, de 14 de setembro de 1962, o nome do teatro aparece como local de votação da 31ª Secção, da 3ª Zona Eleitoral de Natal, localizado na Avenida Presidente Bandeira, 514, onde já existia a Diretoria de Documentação e Cultura da Prefeitura de Natal (DDC), com museu popular, biblioteca e discoteca, e que teve como diretor nomeado o poeta Newton Navarro. Entretanto, o próprio Diário de Natal traz a informação da inauguração oficial do espaço, em 1º de maio de 1963, por iniciativa da Prefeitura de Natal, na gestão de Djalma Maranhão, durante o Congresso de Cultura Popular.

Na prática, o Teatrinho do Povo era um teatro de arena com tablado de areia, cadeiras distribuídas ao redor do palco improvisado, funcionando nos fundos da Grupo Escolar João Tibúrcio. Ele seria a considerado a segunda casa de espetáculos da capital e um local mais democrático e acessível, tanto para os artistas como para o público que tinha condições de frequentar o TAM.
Sandoval faleceu em 10 de agosto de 1972 e sua importância não passaria em branco. No início dos anos 1970, o Teatrinho foi fechado para reforma, que seria concluída em 21 de junho de 1973, sob a gestão do prefeito Jorge Ivan Cascudo Rodrigues e da secretária municipal de Educação e Cultura, Olinda Gomes da Costa, que decidiram homenagear o ator dando seu nome ao teatro.
Esse local viveu seu auge nos anos 1970 e 1980, sendo a primeira casa para muitos artistas e local de espetáculos para inúmeros grupos, dando a oportunidade que Wanderley deu décadas atrás com teatro de amadores. O Teatro Sandoval Wanderley persistiu até os anos 2000 com pelos menos duas reformas, até seu fechamento em 2009, quando era conhecido também por Teatro Municipal. Em 2025, o equipamento ganhou um novo capítulo, quando passou a ser administrado pelo Serviço Social do Comércio (Sesc RN), entidade do Sistema Fecomércio RN, por meio de uma parceria público-privada firmada com a Prefeitura de Natal, válida por 20 anos.


